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semiotica

SEMIÓTICA FÁCIL

 

5. METÁFORAS

METÁFORA, é um termo bem conhecido - remete-nos ao estudos da gramática. Se nos perguntarmos que diabos faz a metáfora num estudo de semiótica logo perceberemos que METÁFORA, antes de ser aquela velha figura de linguagem, oral e escrita, é sobretudo um recurso semiótico baseado na transferência ou desvio do significado próprio ou costumeiro dos termos numa proposição. Por isso as metáforas também são chamadas de tropos. Tropo é uma palavra grega que significa giro, desvio. Podemos ainda entender como troca, transferência, mudança.

Metáfora é transferência de significado. É referir-se a uma coisa utilizando-se da imagem ou idéia de outra coisa. Essa transferência somente é possível por causa das afinidades, ainda que remotas, entre diferentes coisas. Na metáfora, o significado é função das afinidades entre os termos que a compõem ( a ela, metáfora ). A metáfora é um tipo de semiose que pertence à esfera da chamada semântica enciclopédica. Para compreender o significado de uma metáfora é inevitável que raciocinemos de modo enciclopédico, ainda que nosso ponto de partida seja uma definição dicionarial. Isso porque os significados restritos, costumeiros, que o dicionário oferece, não dão conta das possíveis transferências de significado que possibilitam a uma metáfora, "fazer sentido"- funcionar .

Na gramática a metáfora está entre as figuras de palavras, classificada das figuras de linguagem. Além da metáfora existem mais três tipos de figuras de linguagem. São elas: METONÍMIA com seus 13 tipos de diferentes relações entre os termos, metaforizante e metaforizado, PERÍFRASE e SINESTESIA. As diferenças que a gramática estabelece pretende reunir, sob cada uma dessas denominações, tipos específicos de relações entre "coisas".

METÁFORA: desvio de significado produzido por uma comparação mental ou característica comum, ainda que remota, entre seres e fatos.

METONÍMIA: aqui o significado deriva de uma relação de 13 tipos de relações diferentes entre "coisas" que são de fato relacionadas e assim, uma representa a outra. O efeito representa a causa, o autor, a obra, a parte, o todo e assim por diante.

PERÍFRASE: é uma designação indireta. Refere-se a um atributo da "coisa" ou fato que torna a "coisa" célebre e inconfundível.

 

Exemplos 6

Poeta dos Escravos = Castro Alves

Ouro Negro = petróleo

plata, cacau = dinheiro

Cidade eterna = Roma

SINESTESIA consiste em atribuir percepção própria de um sentido a outro. Exemplo: Voz doce e aveludada descreve a voz com palavras próprias às percepções do paladar e do tato.

Para a semiótica, todas essas figuras de linguagem são tropos ou metáforas porque todas consistem em desvio ou corrupção de significado. A metáfora é usada quando se deseja obter determinados efeitos de expressão: enfatizar, dizer de maneira indireta, exaltar certos aspectos de um objeto, evocar atmosferas.

5. 1. METÁFORAS NO COTIDIANO

Metáforas são muito antigas e muito comuns. Estamos cercados de metáforas. A metáfora é constituinte da própria linguagem, e poderíamos dizer que todo signo é metáfora, quando transfere o sigficado indizível do incognóscível para um objeto representativo. Notemos que as metáforas funcionam como substitutos para termos mais próprios, óbvio ou costumeiros, em dado contexto. Esse "funcionamento" da metáfora repete o mecanismo da semiose em geral. Ou ainda, se o signo é uma coisa que representa outra, estando no lugar de outra, o mesmo se dá na metáfora. Podemos distinguir semiose lato sensu de metáfora analisando os caminhos do entendimento. Na metáfora o entendimento é determinado, principalmente, por meio de associações idiossincráticas, evocativas, inferenciais, lógico-relacionais ou, como sugere Umberto Eco (1984) por ratio dificilis (raciocínio complexo). Na semiose metafórica, o modo simbólico de significação assume um importante papel mediador entre inferências e associações. Todo termo metafórico tem um caráter simbólico, ainda que sutil, oculto ou indireto. A peculiaridade da significação por metaforização reside na eficácia desse recurso quando o objetivo é enfatizar certos aspectos de uma realidade, sintetizar, enaltecer, ou mesmo ornamentar, simplesmente, um discurso, poetizar situações, seduzir pela palavra. O efeito se opera pela evocação de relações não vulgares entre o metaforizante e o metaforizado. Com tal virtude de eficácia a metáfora está em toda parte: na língua do povo, na gênese de gírias, neologismos e ironias, nos filmes e slogans e imagens da publicidade, nas manchetes do dia a dia, nas artes em geral. Encontramo-la em todas as linguagens: escrita, falada, audio-visual.

 

5.2. METÁFORA E MATEMÁTICA

As metáforas podem ser explicadas e entendidas de acordo com um raciocínio matemático. Certos pensadores gostam muito dessas analogias porque emprestam um certo ar de exatidão às chamadas ciências humanas. Logicamente, nesses casos, tal exatidão é apenas relativa. O lingüista dinamarquês Hjelmslev tentou desenvolver essa idéia. Para ele a língua podia ser investigada em termos algébricos, distinguindo nas palavras e proposições aspectos ou GRANDEZAS constantes e variáveis, tal como nos sistemas de equações.

Umberto Eco, em Semiótica e filosofia da linguagem, refere-se às metáforas como sistema de relações entre dois ou três termos - que pode ser representado com notações semelhantes às que servem aos problemas matemáticos de relações e proporções. Para entender metáforas através de um raciocínio ordenado matematicamente partimos do seguinte fato: metáforas expressam significados ou funcionam quando destacam equivalências, pertinências, proximidades, contingências, enfim associações entre termos costumeiramente não associados. Essas associações podem ser óbvias ou insuspeitadas. Podem exigir, do entendimento, tanto um raciocínio simples quanto complexo ou mesmo refinado (ratio simples e ratio dificilis, segundo Eco).

Tais relações se estabelecem em FUNÇÃO de afinidades "des-cobertas", desnudadas, realçadas, evidenciadas, enfatizadas pela construção metafórica. Tanto para construir quanto para entender metáforas é necessário conhecer o universo semântico dos termos e o contexto de ocorrência da proposição. Valores simbólicos, que se eqüivalem em dado contexto, tornam possível a relação metafórica entre termos de linguagem. Observe a analogia com a representação matemática baseada na lógica das razões e proporções:

em matemática 6

a:b::c:d

LENDO: a está para b assim como c esta para d, significando que o produto dos extremos (a x d) é IGUAL ao produtodos meios (c x d). EM EXEMPLO NÚMERICO:

4 2:3::12:18 ESTA É UMA RELAÇÃO DE RAZÃO E PROPORÇÃO. SÃO VALORES DESIGUAIS PORÉM EM ESTADO DE RELAÇÃO SEMELHANTE EM NATUREZA (RAZÃO) E PROPORÇÃO. DE FATO:

2 x 18 = 3 x 12 = 36

 

na metáfora 6

TERMO 1 : TERMO 2 :: TERMO 3 : TERMO 4

NA FRASE 4 No deserto, o ouro negro jorrava em torrentes

O exemplo mostra uma clara transferência de significados posto que a semântica dicionarial (o significado costumeiro) informa que ouro: 1º não é negro; 2º sendo sólido, não jorra, propriedade de líquido. Percebe-se então OURO NEGRO é uma expressão que, no exemplo, está substituindo o substantivo concreto que constitui o sujeito. Considerando a qualidade usualmente mais associada ao ouro, temos:

OURO : VALOR ECONÔMICO ou RIQUEZA EM MATÉRIA SÓLIDA

:: QUALIDADE "NEGRO": RIQUEZA QUE "JORRA", LÍQUIDA

Ouro e petróleo se assemelham na sua condição de valor pecuniário

Como numa advinhação, brincadeira de crianças, a metáfora sugere a questão: o termo metaforizado é uma matéria líquida e negra que possui a mesma qualidade de riqueza econômica que o ouro, ou seja, petróleo. Ouro equivale a petróleo se considerado o aspecto do valor pecuniário das duas substâncias.

Podemos estabelecer outros tipos de analogia, com operações de conjuntos ou equações exponenciais, por exemplo:

EXEMPLO 1
Explicando metáfora com operações de conjuntos:

Consideremos primeiramente que todo signo tem seus correspondentes significantes (significados possíveis) num universo ou continuum semântico. Nesse universo, podemos delimitar subconjuntos de significantes pertinentes a cada signo. Muitos significantes podem pertencer simultâneamente, ou figurar ao mesmo tempo em diferentes subconjuntos em função do contextos de um enunciado.

Analisemos a metáfora em:

Napoleão amargou a derrota

Tomemos então 2 subconjuntos de significantes:

D = subconjunto dos significantes para DERROTA

A = subconjunto dos significantes para AMARGO

REPRESENTEMOS A RELAÇÃO 6

A Ç D [ A inter D]

OU SEJA, BUSCAMOS O PONTO DE INTERSECÇÃO ENTRE AMARGO E DERROTA. Comparemos então os conjuntos de significados dos dois termos da metáfora.

DERROTA: perda, desgosto, humilhação, sensação desagradável

AMARGO: oposto ao doce, oposto ao gostoso, sensação desagradável

 

 

EXEMPLO 2
explicando a metáfora usando equação exponencial

A fórmula básica da equação exponencial é:

Xn = Y

Agora, examinemos a metáfora em:

Minha sogra tem uma língua afiada

 

Ora, ser afiada, cortante, não é atributo natural desse orgão chamado língua. No caso, a língua foi elevada à condição de afiada, à potência "afiada". Para entender a metáfora perguntamo-nos: que coisas são normalmente passíveis de serem consideradas afiadas ? Resposta: lâminas, tesouras, facas, espadas etc. Observemos que poderíamos resumir essas coisas todas no conceito de ARMA BRANCA, conforme o uso que delas se faz.

 

Considerando todas essas informações a equação fica assim:

Sendo

X = língua

n= potência afiada

temos que:

LÍNGUA afiada = Arma Mortal

 

 

BIBLIOGRAFIA

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1991.

ECO, Umberto. Semiótica e filosofia da linguagem. Lisboa: Instituto Piaget, 1984.

 

 

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ligia cabus do nascimento