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3. SEMIOSE

Semiose é um fenômeno ancestral. Atividade catalizadora, viabilizadora de todas as demais faculdades da mente humana. É o ponto de partida para uma ontologia da consciência - estado de ser e estar consciente de si mesmo, das coisas à sua volta e das relações entre tudo isso. Pretender entender a semiose é pretender entender o entendimento. É querer flagrar a si mesmo a sofrer um fenômeno intermitente pois que estar consciente depende de "se entender" como vivo, existente. Pensar sobre semiose é pensar sobre o pensamento porque operar com signos precede a própria reflexão sobre o fato de que somente pensamos por meio de signos. Disse Descartes: " penso, logo existo" . Porém, nem tudo que existe, pensa. Mas, se existo e digo "eu existo" , e represento para mim que existo, então com certeza, isso é pensar. Digamos então: se sei que existo é sinal de que penso!

Pesquisas em lingüística, psicologia, antropologia e semiótica admitem que linguagem e pensamento são duas faces de um mesmo fenômeno psíquico - que distingueo homem dos outros animais, pelo grau de desenvolvimento que aquelas faculdades alcançam na espécie. Por isso, falar de semiose é difícil. O fenômeno da significação se confunde, na bruma pré-histórica, com o fenômeno da humanização, ainda em curso, conquista gradativa, sem fronteiras definidas entre suas fases, do hominídeo ao homo-sapiens-faber-loquens ( pensante, fazedor e falante ).

3.1. FENOMENOLOGIA DA SEMIOSE

O signo só existe se existe para alguém. Isto pressupõe um sujeito em relação com o signo ou, só há significação em estado de relação de mais de um. Qualquer signo só existe quando em ação e muitos estudiosos definem semiose como ação dos signos. A semiose - ou o fenômeno da significação - constitui-se numa relação de 3 elementos. São eles : SIGNO, SIGNIFICANTE e SIGNIFICADO. Vejamos abaixo uma representação gráfica dessa relação:

No gráfico, o intérprete está diante do signo em uma dada circunstância de ocorrência e, ao mesmo tempo, dispõe de um continuum (universo) de significados possíveis. Uma mensagem qualquer, visão ou ruído que despertou a atenção do sujeito. Nesse momento, a mente é acionada pela percepção desse estímulo: o signo ou, em geral, vários deles combinados. Operações do raciocínio processam informações e alcançam um significado. Entre o signo e o significado, existem inúmeras possibilidades de interpretação: são os significantes. Ou seja, o significado depende; depende sempre de um contexto, de circunstâncias, que o determinam, caso a caso. Há significados óbvios e outros, nem tanto. É fácil ler um bilhete em chinês se você é chinês. Mas nem sempre é tão fácil entender obras de arte. O fenômeno é sempre o mesmo: semiose. Mas o resultado final, o significado, é um mutante que varia conforme intérprete e ocorrências reais. Por causa desses diferentes modos de ocorrência da semiose, existe mais de um mecanismo que nos leva ao entendimento de uma proposição ou mensagem. O matemático e lógico alemão, Gottlob Frege (1848-1925), ocupou-se em refletir sobre a distinção entre sentido e significado dos sinais. Para ele,

(...) o significado seria o objeto denominado ou denotado pela expressão; já o sentido conteria o modo de apresentação pelo qual o sinal fornece seu significado. (...) "estrela da manhã" e "Vênus" têm o mesmo significado, mas diferem quanto ao sentido (...) a afirmação "Vênus é a estrela da manhã" transmite conhecimento verdadeiro, ao passo que "Vênus é Vênus" não o faz, a saber, o conhecimento de que a estrela que aparece pela manhã é a mesma que aparece à tarde. [Frege, Vida e Obra. Luis Henrique dos Santos. In Frege. São Paulo: Abril Cultural, 1980 - p. 187]

TRIÂNGULO DE FREGE 6

O problema da distinção entre significado e sentido conduziu Frege a construir um modelo diagramático baseado na lógica geométrica das linhas que se cruzam entre os vértices de um triângulo.

(...) sejam a, b e c - as linhas que ligam os vértices de um triângulo com os pontos médios nos respectivos lados opostos; nesse caso, o ponto de intersecção de a e b é o mesmo que o de b e c. Disso resultam diferentes designações [representações] para o mesmo ponto e essas designações [são] diferentes modos de apresentação (...) Desse modo, pode-se dizer que as duas expressões, a r b e b r c têm o mesmo significado, mas diferem quanto ao sentido.

[Frege, vida e obra. Luis Henrique dos Santos. In Frege. São Paulo: Abril Cultural, 1980 - p. 187]

As diferentes expressões ou sentidos do significado ou signo "x"

x = a r b (a cartesiano b)

x = a r c (a cartsiano c)

x = b r c (b cartesiano c)

 

3.2. MECANISMOS DO ENTENDIMENTO

A ciência semiótica aponta 03 mecanismos mentais através dos quais produz a semiose. Ou seja, são 03 diferentes maneiras de se chegar ao entendimento de alguma coisa. Entende-se alguma coisa, chega-se a um significado, por meio de diferentes relações entre as idéias. Entendemos por relação de (1) equivalência, ou através de (2) inferências ou por meio de (3) associações. São como caminhos mentais que conduzem a consciência aos significados. A diferença entre eles está no grau de complexidade e na qualidade de raciocínio que cada um deles requer para obter desde um entendimento propriamente dito, até simples reação, que também não deixa de ser função de um entendimento, deixando entrever um processo de significação. Os signos, servem diferentemente aos três mecanismos mentais. Diferentes coisas significam de diferentes modos. Entender música difere de entender poesias ou anúncios de jornal. Entender palavras do poema difere de entender o sentido dominante do poema. Para diferentes modos de entendimento há, portanto, diferentes mecanismos de entendimento processadores de diferentes combinações-ocorrências de signos.

 

 

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ligia cabus do nascimento