Prefácio
 
 
Uma escritura na zona de sombra
 
À memória de Paulo Leminski         
 
     A poesia é um corpo de delito. Propor novas relações entre as palavras, recusando a rotina no uso do idioma, é um ato de dissidência (para alguns, de demência). Escrever na zona de sombra, no espaço à margem, desvio ou desvão, é a demanda dos poetas brasileiros na entrada do terceiro milênio, em busca de uma escritura renovada. Nessa aventura que se desconhece, jogo de pólo entre centauros, a poesia se afirma como um exercício entre a razão e o duende e abre caminhos ao pensar, sempre enamorado de outras formas estruturais e semânticas. Ao longo dos anos 80 e 90, a descida de Orfeu aos infernos, que é a reflexão sobre os processos da linguagem, estimulou a releitura de autores "obscuros" ou "herméticos" de uma antitradição, como Lezama Lima, Paul Celan, Francis Ponge e Robert Creeley, numa saga de ampliação do repertório. Do mergulho vertical até o ignorado surgiu uma poemática concisa, elíptica, fragmentária e metafórica que por vezes sobrepõe o som ao sentido, ou antes cria novos sentidos para as palavras da tribo. Essa ars poetica, que já foi chamada de pós-concreta, parte da crise do verso de Mallarmé, mas procura soluções construtivas diversas de Noigandres. No lugar da visualidade, da aplicação de recursos tipográficos e de leiaute que nortearam as técnicas de composição do grupo concreto, o olho-da-forma dessa geração privilegiou a desarticulação sintática e a renovação léxica. Foi retomado, assim, o diálogo com o modernismo brasileiro em seus momentos de maior tensão e radicalidade, e em especial com Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto, sem recusar algumas contribuições da Poesia Concreta, da Tropicália e do legado das poéticas de vanguarda dos anos 70, entre outros ecos e reverberações. 
     Todas essas faíscas estalam, vivazes, em poetas como Carlito Azevedo (que edita a revista Inimigo Rumor, no Rio de Janeiro) e Claudia Roquette-Pinto, mas não podemos falar de um movimento, já que inexistem manifestos, ensaios teóricos ou a defesa, em bloco, das mesmas teses normativas. Além disso, temos de levar em conta as diferenças de dicção, paleta cromática e mitologia pessoal entre eles. Podemos falar, talvez, de um espírito de época. Nesse sentido, é importante notar que os poetas da nova geração, em especial nos grandes centros urbanos, muitas vezes sem terem contato uns com os outros, obtiveram resultados similares pela coincidência de leituras e pesquisas formais; podemos falar, então, de sincronicidade. 
     O "demônio da analogia" aponta afinidades entre a arte verbal de Carlos Ávila e Ronald Polito, cultores do minimalismo, da fala reduzida — interstício da voz ao silêncio — e os poetas que se reuniram em torno da revista Monturo, de Santo André (SP), como Tarso de Melo, Kleber Mantovani e Fabiano Calixto, que praticam uma escrita concisa não-referencial, centrada na materialidade da palavra, sob o influxo da Language Poetry. Essa vertente construtivista, à qual estão ligados também muitos outros nomes, como Elson Fróes (editor do site Popbox), Claudio Nunes de Morais e Jorge Lúcio de Campos, não é, porém, a única vereda da poesia experimental brasileira mais recente. A diversidade de linhas de pesquisa e processos de criação, signo dinâmico da nova poesia, requer não o estático, mas o mutável, sem a hegemonia de uma única concepção, e aponta ainda em outras direções luminosas. O tempo exige poéticas em mandala, arco-íris, cauda de pavão, e desencasula formas e cores como um tapete marroquino. 
     A escrita em iluminura de Josely Vianna Baptista faz uma síntese notável da visualidade com a estética do fragmento e os recursos do Neobarroco, desmanchando as fronteiras entre prosa e poesia. O espelho transtornado, que multiplica as palavras em espectros de luz e sombra, um pouco joyceanamente, chega a um estado de prazer alucinatório na poesia de Jussara Salazar, que cria uma sintaxe onírica despindo o idioma e cavando tatuagens no papel. São imagens do inconsciente no ritmo simbólico do outsider, fala do avesso do cristal. Contador Borges, por sua vez, partiu do cavalete diabólico para uma confluência do olho-que-pensa com música de celesta e vago aroma simbolista, articulando um dialeto pessoal de cores e sons. Participam ainda dessa estranha confraria autores como Antônio Moura, que faz do teclado do computador uma paleta de cores alteradas, numa estética do choque; Sérgio Cohn, editor da revista Azougue, que evoluiu da imagética surrealista para uma prosódia elíptica, densa e complexa; e Joca Reiners Terron, que fratura a ordem do discurso em irrupção polifônica, moldada nos acordes da contracultura. 
     A desarticulação sintática e a mestiçagem semântica que verificamos nesses autores sugerem uma relação especular ou icônica com o tempo ruidoso, inquieto e fragmentário em que vivemos. O império do pós-moderno, que vaticinou o fim da história e o eclipse das utopias, sob a hegemonia do capitalismo predatório neoliberal, só poderia mesmo conduzir a dois caminhos opostos: o da negação da idéia de vanguarda e o da (re)afirmação dos conceitos de invenção e pesquisa estética. Enquanto o primeiro faz a apologia da adoção de formas canonizadas por certa crítica universitária, como a poesia coloquial e discursiva centrada no cotidiano,  reverberando o Modernismo dos anos 30, o segundo retoma a exploração de novos processos e procedimentos de escritura, como resposta, no plano formal, ao discurso banalizante da mídia. A demanda de informação nova para o fazer poético, no caldo de beleza e brutalidade da aldeia globalizada, não se confunde, porém, com a tese de evolução estética linear, nem com a proposição de um futuro planejado, a partir de um programa teórico e de um grupo organizado, elementos típicos das vanguardas da primeira metade do século passado. Temos aqui uma pluralidade de linhas experimentais, firmadas no solo da agoridade, sem proclamar dogmas e heresias, sem convocar inquisições e cruzadas para a reconquista do Santo Sepulcro. 
     Os poetas atuais não comungam de um mesmo credo, mas têm como princípio básico a noção do poema como um elaborado artefato de linguagem — e não apenas isso. O meticuloso artesanato das palavras soma-se à investigação de novos repertórios simbólicos e culturais do Ocidente e do Oriente, da escritura e de outros códigos de expressão, de um passado remoto ou da atualidade — como resistência. Ricardo Aleixo, por exemplo, sob o influxo das pesquisas do poeta e antropólogo Antonio Risério, encontrou referências no oriki, a poesia-canto dos negros africanos, embebida de erotismo e sacralidade, erigindo  uma poética do êxtase, que recupera o ideal do poeta-xamã. Nessa mesma linha está inserida também a aventura poética de Ademir Assunção, que une o uso de técnicas do cinema, das histórias em quadrinhos e da música popular ao resgate da experiência mitológica dos índios brasileiros. O resultado dessa estranha alquimia de linguagens é uma poesia de somatória, mescla, diversidade e multi-referencialidade, como o jazz. Já Rodrigo Garcia Lopes (que, junto com Ademir e Ricardo Corona, editou a revista Medusa) incorporou num repertório de afinidades eletivas a dicção beat, explorando a coloquialidade, a narração e os versos longos, vestígios da poesia oriental, como Bashô e Li T´ai Po, e certas linhas poéticas contemporâneas, do rap das ruas de Nova York à lírica séria de Laura Riding e John Ashbery. 
     Esse diálogo aberto e crítico com outras culturas e a apropriação transformada (miscigenada) de formas nada tem de epigonal ou ingênuo. Trata-se aqui de compartilhar (ou intercambiar) as visões, a vivência, as cores e os sons de outras latitudes geográficas ou temporais, numa era onde não há mais fronteiras. Para uma maior compreensão deste processo, seria  preciso uma análise em profundidade, muito além das teses redutoras do multiculturalismo e da teoria dos gêneros, tão em voga hoje, em (in)certos círculos.
     Sem exorcizar o passado, com furor iconoclasta, ou praticar a necrofilia dos gênios tutelares/tumulares consagrados pela tradição, esses poetas mantêm um diálogo vivo com o cânone, harmonizando os três tempos da consciência — passado, presente, futuro. Não almejam, como as viúvas de Olavo Bilac e Gonçalves Dias, retomar os metros clássicos, o soneto reciclado ou a retórica de juristas de província, mas recuperar o que houve de instigante, inquieto e desafiador nas vozes mais densas de nossa poesia. Assim, por exemplo, Anelito de Oliveira estabelece um diálogo íntimo, não epigonal, com o quase-expressionismo de Cruz e Sousa (em Faróis); Angela de Campos retoma o humor e os paradoxos de Murilo Mendes; Arnaldo Antunes e João Bandeira revisitam, com olhar crítico, a poesia visual, e autores mais recentes, como Fabrício Marques, Reynaldo Damazio, Matias Mariani (editor de Sebastião) e Eduardo Sterzi, revêem processos do modernismo e da  vanguarda, em dicções pessoais e distintas. Esta conversa inteligente entre poéticas de diferentes tempos históricos, sem vocação conformista, não intenta o retorno da múmia, mas do ideal de inovação e rebeldia, pois tem saudade do futuro, da utopia que ainda não houve, a construir. 
     A relação entre arte e vida, que estimulou o debate sobre o fazer poético como conquista da forma ou confissão, parece já não ser um tema da agenda literária das novas gerações.  Embora em alguns autores predomine o artifício, a maquiagem de um vocabulário rebuscado, as vozes mais consistentes da poesia atual evitam separar a experiência vital da operação de linguagem: as palavras fazem sentido não apenas como grafias, partituras e mosaicos, mas também como símbolos viscerais da jornada humana. A reflexão existencial, motivada pelo absurdo da rotina diária, marcada pelas exigências impessoais de uma ordem injusta, está presente na poesia à flor da pele de autores como Frederico Barbosa, José de Paula Ramos Jr., Cacá Moreira da Silva e Donizete Galvão. Usando diferentes técnicas e estilos,  mas sem cair na tentação naturalista, estes poetas retratam o ambiente de trabalho, as relações amorosas e cenas da vida urbana, em pinturas vivas. 
     A vinculação com o mundo dos homens e das coisas, com a fala ordinária das ruas, é evidente nos poetas que, embora tenham assimilado os recursos concretistas, mesclaram esse aprendizado com a libertinagem da  Poesia Marginal: é o caso de autores como Luiz Roberto Guedes, Rodrigo Souza Leão (editor do site Caos), Lau Siqueira e Maurício Arruda Mendonça. Todos esses poetas, e muitos outros que não foram reunidos na presente antologia, fazem parte de uma geração cujo trabalho, de alta consistência e seriedade, merece ser enfocado em grande angular. A superação das dicotomias entre Eros e Logos, conteúdo e forma,  inspiração e arquitetura, natureza e engenho parece ser a América desejada por todos estes navegantes, condenados, segundo a profecia de Octavio Paz, a conduzir revoluções solitárias. Só nos resta aguardar o que o tempo dirá de suas pequenas epopéias. Ao abalar as normas constituídas do discurso, e portanto as noções subjetivas do eu e do outro, do mundo e das coisas, o fato poético transtorna o olhar, e coloca em cena visões ou modelos da realidade que deslocam tudo o que sonha com a permanência. Nada é estático, parece nos dizer a poiésis, tudo está em mutação, como o rio arquetípico de Heráclito. Articulando novas formas de dizer, sem recusar o diálogo com os momentos transgressivos do passado, a aventura da modernidade tem sido, desde suas origens, definir a matéria verbal, o homem e o mundo como sinais de um contínuo vir-a-ser. O amadurecimento da nova poesia brasileira, em particular nos últimos vinte anos, reafirma o caráter dissidente, ou demente, dessa capacidade (necessária) de responder à esfinge com novos mistérios.
 
Claudio Daniel
No ano do Cavalo de Água
 
 

     Post-scriptum: esta antologia teve o propósito de abordar, sobretudo, a criação poética dos anos 80-90. Porém, os organizadores acharam salutar incluir na mostra alguns poetas que, tendo estreado em livro na década de 70, em edições de pequena tiragem custeadas pelos próprios autores, obtiveram fortuna crítica mais recente e publicaram seus primeiros títulos de circulação mais ampla na década passada. Este é o caso de Glauco Mattoso (Centopéia), Antonio Risério (Fetiche) e Júlio Castañon Guimarães (Matéria e Paisagem). Por iniciativa de Frederico Barbosa, foi incluído no final do volume uma seção especial dedicada a autores inéditos, cujo trabalho começa a despontar em sites e revistas de literatura. São eles: André Dick, Micheliny Verunschk, Jorge Padilha, Amador Ribeiro Neto, Paulo César Carvalho e Takeshi Ishihara, que merecem ser lidos com atenção. 
 

 
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Claudio Daniel
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