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Diógenes |
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Quem era1 Diógenes o filósofo
Chegando em Atenas [Diógenes] deparou com Antístenes. Uma vez que
este, que não queria acolher ninguém como aluno, o rejeitava, ele,
assiduamente perseverando, conseguiu vencer. E, uma vez que Antístenes estendeu
o bastão contra ele, Diógenes ofereceu-lhe a cabeça, acrescentando: “Pode
golpear, pois não encontrarás um bastão tão duro que possa me fazer desistir
de obter que me digas algo, como a mim parece que devas”. A partir daí
tornou-se seu ouvinte e, desterrado como era, dedicou-se a um modesto teor de
vida.
Teofrasto, em seu Megárico, conta que certa vez viu um rato
correr de cá e de lá, sem meta (não procurava um lugar para dormir nem tinha
medo das trevas nem desejava qualquer coisa considerada desejável) e, assim,
cogitou o remédio para suas dificuldades. Segundo alguns, foi o primeiro a
dobrar o manto pela necessidade também de dormir dentro dele, e carregava um
bornal para a comida; servia-se indiferentemente de todo lugar para qualquer
uso, para comer ou para dormir ou para conversar. E costumava dizer que também
os atenienses lhe haviam providenciado onde pudesse morar:indicava o pórtico de
Zeus e a Sala das procissões. [...]
Certa vez tinha pedido a alguém que lhe providenciasse uma casinha; como
o outro demorava, ele escolheu como habitação um tonel que estava [na
localidade do] Metroo, conforme ele próprio atesta nas Epístolas. No
verão rolava sobre a areia ardente, no inverno abraçava as estátuas cobertas
de neve, querendo de todo modo temperar-se para as dificuldades. [...]
Durante o dia vagueava com a lanterna acesa, dizendo: “Procuro o
homem”. Extraído de Diógenes
Laércio, Vidas dos filósofos.
2 Exaltação do exercício e da fadigaA vida do Cínico para Diógenes se
baseava sobre o exercício e sobre a fadiga, considerados como instrumentos
necessários para viver felizes, para saber dominar todos os prazeres e para
alcançar a plena liberdade. Um tipo
de vida como este levava o homem, por fora de todo vínculo social, a
considerar-se cidadão do mundo inteiro, em uma dimensão cosmopolita.
Dizia que o exercício é duplo: espiritual e físico. Na prática
constante do exercício físico formam-se pensamentos que tornam mais rápida a
atuação da virtude. O exercício físico se integra e se realiza com o exercício
espiritual. A boa condição física e a força são os elementos fundamentais
para a saúde da alma e do corpo. Suportava provas para demonstrar que o exercício
físico contribui para a conquista da virtude. Observava que tanto os humildes
artesãos como os grandes artistas tinham adquirido notável habilidade pelo
constante exercício da sua arte, e que os auletes (Tocadores de aulós,
característico instrumento de lingüeta com dois canudos) e os atletas deviam
sua proeminência a um assíduo e trabalhoso empenho. E se estes tivessem
transferido seu empenho também para a alma, teria conseguido resultados úteis
e concretos.
Sustentava por isso que nada se pode
obter na vida sem exercício, ao contrário, que o exercício é o artífice de
qualquer sucesso. Eliminados, portanto, os esforços inúteis, o homem que
escolhe as fadigas requeridas pela natureza vive feliz; a ininteligência dos
esforços necessários é a causa da infelicidade humana. O próprio desprezo
pelo prazer para quem esteja a isso habituado é algo dulcíssimo. E assim como
os que são avessos a viver nos prazeres, logo que passam para um teor de vida
contrário, também aqueles que se exercitam de modo contrário, com maior
desenvoltura desprezam os mesmos prazeres. Estes eram seus preceitos e a eles
conformou sua vida. Falsificou realmente a moeda corrente, porque dava menor
valor às prescrições das leis do que às da natureza. O modelo de sua vida,
dizia, foi Héracles que nada antepôs à liberdade.
Interrogado sobre sua pátria, respondeu: “Cidadão do mundo”. Diógenes Laércio, Vidas
dos filósofos.
3 Diógenes em confronto com Alexandre Magno
Diógenes Laércio, Vidas
dos filósofos. É característica típica da alma do filósofo amar a sabedoria e os homens sábios: justamente esta foi uma característica de Alexandre, mais que qualquer outro rei. Quais tenham sido suas relações com Aristóteles já foi dito. Além disso, é atestado por numerosos autores o que segue: honrou mais do que todos os seus amigos o músico Anaxarco; na primeira vez que se encontrou com Pirro de Élida, deu-lhe dez mil moedas de ouro; a Xenócrates, parente de Platão, mandou cinqüenta talentos; escolheu Onesícrito, discípulo de Diógenes, como comandante de sua armada.
Quando foi discutir com Diógenes nas proximidades de Corinto,
espantou-se e ficou tão maravilhado pela vida e pela posição assumida por
este homem, a ponto que, freqüentemente, lembrando-se dele, dizia: “Se não
fosse Alexandre, eu queria ser Diógenes”. O que significa: “Se eu não
tivesse feito filosofia por meio das obras, em teria me dedicado aos raciocínios”.
Alexandre não disse: “Se eu não fosse rico ou Argeades”; com efeito, não
colocou a fortuna acima da sabedoria e a púrpura real e a coroa acima do bornal
e do manto desgastado, mas disse: “Se não fosse Alexandre, eu seria Diógenes”;
o que significa: “Se eu não me tivesse proposto reunir entre si os bárbaros
e os gregos, percorrendo todos os continentes para levá-los à civilização, e
de alcançar os confins extremos da terra e do mar reunindo a Macedônia com o
Oceano para lançar as sementes da Grécia e difundir entre todos os povos justiça
e paz, não estaria em ócio no luxo, mas imitaria a simplicidade de Diógenes”. Plutarco, Sobre a fortuna
ou virtude de Alexandre.
4 Diógenes e o símbolo do “cão”Eis algumas afirmações que Diógenes fez a propósito de chamar a si mesmo de “o cão”.
Ele se definia um cão daqueles universalmente elogiados, mas,
acrescentava, nenhum dos que o elogiavam ousava sair junto com ele para caçar.
A certo homem que se vangloriava de vencer os homens nas corridas píticas,1
replicou: “Eu venço homens; tu, escravos”.
Interrogado sobre de qual raça de cão fosse, respondeu: “Quando tenho
fome, um maltês, quando estou saciado, um molosso, aquela espécie que as
pessoas mais elogiam, mas com a qual todavia não têm coragem de sair para caçar
por causa da fadiga. Assim, não podeis conviver comigo, porque tendes medo de
sofrer”.
Alexandre certa vez o encontrou e lhe disse: “Eu sou Alexandre, o
grande rei”. Diógenes, por sua vez: “E eu sou Diógenes, o cão”. Diógenes Laércio, Vidas
dos filósofos. |