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oficial de Ubiratan D`Ambrosio |
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Novo texto de D`Ambrosio |
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Formação de professores: o comentarista crítico e o animador cultural |
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Ubiratan
D’Ambrosio [1] |
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“Era uma vez um menino
bastante pequeno que contrastava com a escola bastante grande. Uma manhã, a
professora disse: - Hoje nós iremos fazer um desenho. "Que bom!" -
pensou o menininho. Ele gostava de desenhar leões, tigres, galinhas, vacas,
trens e barcos... Pegou a sua caixa de lápis-de-cor e começou a desenhar. A
professora então disse: - Esperem, ainda não é hora de começar! Ela esperou
até que todos estivessem prontos. - Agora, disse a professora, nós iremos
desenhar flores. E o menininho começou a desenhar bonitas flores com seus
lápis rosa, laranja e azul. A professora disse: - Esperem! Vou mostrar como
fazer. E a flor era vermelha com caule verde. - Assim, disse a professora,
agora vocês podem começar. O menininho olhou para a flor da professora, então
olhou para a sua flor. Gostou mais da sua flor, mas não podia dizer isso...
virou o papel e desenhou uma flor igual a da professora. Era vermelha com
caule verde. Num outro dia, quando o menininho estava em aula ao ar livre, a
professora disse: - Hoje nós iremos fazer alguma coisa com o barro. "Que
bom!", pensou o menininho. Ele gostava de trabalhar com barro. Podia
fazer com ele todos os tipos de coisas: elefantes, camundongos, carros e
caminhões. Começou a juntar e amassar a sua bola de barro. Então, a
professora disse: - Esperem! Não é hora de começar! Ela esperou até que todos
estivessem prontos. - Agora, disse a professora, nós iremos fazer um prato. "Que
bom!", pensou o menininho. Ele gostava de fazer pratos de todas as
formas e tamanhos. A professora disse: - Esperem! Vou mostrar como se faz.
Assim, agora vocês podem começar. E o prato era um prato fundo. O menininho
olhou para o prato da professora, olhou para o próprio prato e gostou mais do
seu, mas ele não podia dizer isso. Amassou seu barro numa grande bola
novamente e fez um prato fundo, igual ao da professora. E muito cedo o menininho aprendeu a esperar e a olhar e a fazer
as coisas exatamente como a professora. E muito cedo ele não fazia mais
coisas por si próprio. Então aconteceu que o menininho teve que mudar de
escola. Essa escola era ainda maior que a primeira. Um dia a professora
disse: - Hoje nós vamos fazer um desenho. "Que bom !", pensou o menininho
e esperou que a professora dissesse o que fazer. Ela não disse. Apenas andava
pela sala. Então veio até o menininho e disse: - Você não quer desenhar? -
Sim, e o que é que nós vamos fazer? - Eu não sei, até que você o faça. - Como
eu posso fazê-lo? - Da maneira que você gostar. - E de que cor? - Se todo
mundo fizer o mesmo desenho e usar as mesmas cores, como eu posso saber o
desenho de cada um? - Eu não sei... E então o menininho começou a desenhar uma flor vermelha com o
caule verde...” Helen Buckley Num trabalho recente, o educador Mihaly
Csikszentmihalyi diz: “Escolas, mesmo sendo
importantes, contribuem apenas com uma fração relativamente modesta para a
educação dos jovens”. [2] Essa observação nos convida a refletir
sobre a formação dos professores nessa nova visão do papel da escola, que vem
tomando corpo nos meios educacionais. A escola oferece um espaço passivo de ouvir
e ver conhecimento velho, congelado, com a esperança que o aluno será capaz de descongelar esse
conhecimento para aplicá-lo a situações novas. É muito importante que os
alunos tenham como foco atividades experimentais e de solução de problemas
que tratam de fatos e objetos reais, uma aprendizagem baseada na convivência
com práticas efetivas e na ativação de todos os sentidos e memórias de
situações anteriores. É a oportunidade de praticar o novo e de encarar o
desafio intrínseco a essa experiência. Hoje, os jovens são expostos a uma enorme
variedade de experiências resultante de uma multiplicidade de situações e de
meios. O aprendizado tradicional não satisfaz às ansiedades desses jovens. Somos naturalmente levados a perguntar
sobre a natureza do conhecimento e sua incorporação no cotidiano. Sobre
conhecimento, refiro o leitor a outros trabalhos que tenho escrito. [3] Neste trabalho vou falar sobre o cotidiano e
sobre a formação do professor para incorporar o cotidiano na sua prática
pedagógica. As
experiências do cotidiano Ao falar sobre o cotidiano quero destacar o
amplo espaço ocupado pela mídia, particularmente a televisão. Sabemos que
mesmo nas residências mais modestas há um televisor, com prioridade sobre uma
geladeira. É interessante observar que a legislação atual proíbe que se
penhore cama, fogão, geladeira, mesa de refeições de famílias respondendo a
processos por dívidas, por se tratar de bens essenciais no cotidiano
familiar. Uma lei complementar incluiu televisão como impenhorável. Curioso
que muitas famílias não possuem geladeira, mas praticamente todas possuem
televisão. Isto é, praticamente toda criança que vai à
escola tem acesso a programas de televisão. Os programas assistidos pelas
crianças são, muito provavelmente, noticiários de nível muito baixo, do tipo mondo cane, telenovelas, filmes e
desenhos. Estes últimos são, na sua maioria, ficção violenta, mostrando o
mundo do futuro, e ancorados em idéias fantasiosas e exploratórias sobre os
avanços científicos e tecnológicos. A importância da ficção no plasmar visões e
comportamentos da sociedade não é novidade. Podemos inclusive lembrar o
grande efeito do romantismo na literatura do século XIX, a partir da paixão
do jovem Werther, de Goethe, e no cinema do século XX. É admitido que a
ficção em literária nos diz muito sobre o cotidiano real. A ficção científica e tecnológica nos fala
sobre avanços recentes e sobre como esses avanços se farão notar no
cotidiano. Isso desde os primeiros avanços da ciência moderna. Por exemplo,
as experiências sobre a eletricidade no corpo humano, sobretudo aquelas
conduzidas por Luigi Galvani no final do século XVIII, estão presentes na
extraordinária personagem do monstro de Frankenstein criado por Mary
Wollstonecraft Shelley. Na transição do século XIX para o século XX, as
fantásticas possibilidades de exploração do planeta e do cosmos, têm grande
popularidade com as novelas de Júlio Verne. Com o advento do cinema, a ficção ganha
ainda mais força graças a imagens vivas e mais acessíveis que as imagens
literárias. O futuro é antecipado nos filmes antológicos de Fritz Lang, em
especial a ficção social de Metrópolis
(1926) e a ficção psico-emocional retratada em O Vampiro de Dusseldorf (1931),
e mais recentemente no O Caçador de
Andróides (1982). Estamos assistindo uma antecipação
do cotidiano. Particularmente, nos desenhos animados, a criatividade dos produtores
não tem limite. Esse é conteúdo do cotidiano preenche a
imaginação das crianças. É o estímulo espontâneo para refletir sobre o novo.
Muito mais interessante que o conteúdo apresentado pelo professor na escola
convencional, seguindo um programa tradicional, que, em geral, é
desinteressante, obsoleto e inútil. DOI no imaginário da criança! O cotidiano, no presente, fecha as portas
do passado e abre as portas do futuro. O passado nos orienta na marcha pelo
futuro. Parece não haver dúvida que o indivíduo marcha para o futuro com mais
segurança se refletir sobre experiências suas e de outros. Dessa reflexão
resulta a aquisição de conhecimento. Uma função da escola é proporcionar
essas experiências e os conseqüentes conhecimentos. Salvo raras exceções, a escola vem tentando
promover a aquisição de conhecimento através de experiências, situações,
vivências padronizadas, desinteressantes e pouco criativas, objetivando a
transmissão de um conteúdo congelado, obsoleto, desligado de tudo o que povoa
a imaginação de uma criança, e que a criança sabe que de nada lhe servirá,
será inútil, na marcha para o futuro, seja como profissional, como cidadão,
como indivíduo criativo. A expectativa de um sistema escolar é
capacitar indivíduos para exercerem uma profissão, para serem cidadãos
conscientes e para serem criativos na sua área de atuação. Para isso ele deve
receber, na escola, os instrumentos comunicativos, abstratos e materiais.
Essa tem sido, ao longo da história, a origem das várias propostas
curriculares, desde o trivium dos
romanos [gramática, retórica, dialética] até a proposta da modernidade [ler,
escrever, contar] e a proposta para a era da tecnologia [materacia,
literacia, tecnoracia]. [4] Não posso deixar de insistir que
experiências pessoais e de outros, isto é, conhecimento do passado, são
fundamentais para entrar no futuro com segurança. A escola seria o espaço privilegiado para
saber sobre o passado e relacionar esse saber com o fazer, que é o novo. Mas
a escola tem poucas condições de oferecer isso. Não tem recursos humanos nem
materiais suficientes e nem agilidade para evitar que a visão de passado e as
experiências novas caiam no maçante repetitivo e sejam, portanto, rejeitadas
pelos alunos. Essa rejeição se traduz nos baixos resultados mostrados nos
testes e exames, no desinteresse generalizado e na evasão. Enormes possibilidades aparecem fora da
escola, extramuros, em parques, comunidades, e muito especialmente em museus. Museus e
parques ecológicos e temáticos Um fato internacionalmente reconhecido é a
criação e fundação de novos museus, das mais diversas modalidades, e o número
crescente de visitantes. O conceito popular de museu associado a um depósito
de coisas do passado é agora complementado por um conceito de museu dinâmico,
aonde se vai não só para apreciar, mas também, e principalmente, para exercer
crítica e criar. Os museus de arte, talvez os mais
numerosos, geralmente possuem um atelier,
onde jovens, adultos e idosos encontram um espaço criativo inspirador. Igualmente populares são os museus
históricos e os museus de ciências. Os primeiros, tradicionalmente
focalizados no orgulho nacional, hoje são freqüentemente focalizados na
crítica a uma ordem social e política indesejável e muitas vezes associados à
propaganda político-partidária. Os museus de ciências, com uma longa
história, são hoje dinâmicos e muitas vezes complementados por parques
temáticos. A grande novidade dos museus virtuais
começa a se definir. O acesso a Internet está aumentando enormemente em todos
os países, inclusive Brasil. O acesso aos mais famosos museus internacionais
já é possível pela Internet. Prevê-se para breve a fusão de
telefone-televisão-computador. Nas suas várias modalidades, o número de
museus se multiplica, e os reflexos de sua presença na sociedade são
estudados com crescente intensidade, despertando o interesse de acadêmicos
das várias áreas. [5] Mas quando e onde surgiram os museus? Os
museus já são noticiados no tempo dos assírios, em 2000 a.C., e no templo de
Karnak, no Egito, em 1500 a.C., como coleções de objetos para deleite e
estudo, especificamente jardins botânicos e zoológicos. Somente na
antigüidade grega os museus começam a ter características mais próximas ao
que se entende hoje por um museu. A mitologia grega se refere às Musas, que
são filhas de Zeus, como aquelas que desejam instruir e fixar o espírito
sobre uma idéia ou uma arte, e o mouseión,
é o templo das Musas. Da antigüidade grega lembramos o mouseión de Alexandria, mantido pelo
Estado, onde estavam reunidos objetos vindos de todas as partes do Império.
Uma verdadeira academia, onde filósofos se reuniam e novas idéias floresciam.
Curioso lembrar a etimologia de academia:
héka = distante + demos = povo. O museu não era
diferente. No Renascimento, os museus se tornaram
gabinetes de curiosidade, onde se podiam apreciar objetos raros, antigüidades
e desenvolver uma forma de deleite com oportunidades de descobrir e entender
um mundo que se tornava global. Os museus geralmente eram propriedade
particular de aristocratas e de clérigos e se tornaram uma forma de patronear
artistas e intelectuais. Tiveram grande expansão no século XVIII, mas não
eram abertos ao povo. Com as revoluções sociais do final do
século XVIII, particularmente a Revolução Americana e a Revolução Francesa,
os museus se tornaram acessíveis ao povo. A percepção das possibilidades políticas
oferecidas pelos museus, sobretudo os museus históricos, que ressaltam
valores nacionais e um conceito emergente de patriotismo, teve como resultado
o patrocínio de museus pelos governos. Essa utilização política do ufanismo
foi o fator principal na expansão de museus abertos ao público no curso do
século XIX e principalmente século XX. Além disso, o poder imperial contava
sua glória pelo estímulo a expedições científicas para todas as partes do
mundo, e pelo apoio ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Criaram-se
assim museus abertos ao público e que poderiam ser interpretados como uma
prestação de contas que o poder dava ao povo. Criaram-se assim os modernos
museus de ciência e de tecnologia. A ênfase no ensino de ciências durante a
expansão dos sistemas educacionais, no início do século XX, foi um fator
importante para o surgimento de museus tendo como foco a popularização das
ciências e das artes e como público alvo os estudantes. Essa presença dos
museus no espaço educacional vem crescendo muito. Seria muito benéfico modalidades
curriculares que incorporassem, nas licenciaturas, disciplinas dos cursos de
turismo e vice-versa. E que espaço
resta para a escola? A escola é um espaço onde jovens, de
diferentes raízes culturais e sociais, se reúnem para adquirir modos de
comportamento e os conhecimentos considerados importantes para desempenhar
seu papel na sociedade. Particularmente importante é a possibilidade de
socialização que as escolas oferecem. É na escola que a criança encontra o
outro, geralmente desconhecido e diferente, e passa a conviver e colaborar
com o outro. Via de regra, as escolas têm expectativas
com relação aos alunos, que resultam dos interesses das mantenedoras, sejam
elas públicas ou privadas. Esses interesses se manifestam na organização
curricular, centrada em conteúdos programáticos, e nas avaliações, geralmente
na forma de testes padronizados. Isso exige uma formação de um corpo docente
compatível com esses interesses. No momento estão surgindo inúmeras
propostas de uma ação renovadora em educação, principalmente na linha de
pensamento de Mihaly Csikszentmihalyi: o aprendizado fora da escola é da
maior importância. O busilis é a formação de professores para
esse novo pensar em educação. Naturalmente, o professor tende a ensinar como
foi ensinado. Como oferecer o novo ao futuro professor? Como fazer com que
ele tenha novas experiências durante a sua formação? Uma forma muito efetiva de se introduzir um
espaço descontraído na formação de professores, pode ser conseguido com os
Laboratórios, que alguns cursos oferecem como atividade complementar às
disciplinas do programa. Embora esses laboratórios sejam mais comuns em
ciências e matemática, a idéia atinge todas as disciplinas do currículo. [6] Sobretudo
os laboratórios integrados oferecem inúmeras possibilidades de preparação em
resposta ao que é observado por Csikszentmihalyi. No futuro, esses
laboratórios não somente serão informatizados, oferecendo inúmeras
possibilidades de simulação, mas também, com a expansão da utilização da Internet
na educação, deverão se assemelhar a museus virtuais. Muitas escolas de ensino fundamental e
médio abrem um espaço para experiências fora da escola, tais como visitas a
museus e excursões. Esse espaço, que poderíamos chamar “fora da escola”,
deveria ser privilegiado, enquanto o espaço escolar tradicional deveria ser
reservado para exercícios críticos, com foco na cidadania. Em outras
palavras, o ensino deveria ter como ponto de partida a experiência em
ambientes distintos de uma sala de aula, associado ao fazer. A aquisição de
conhecimento deveria ter como ponto de partida mercados, praças e fábricas.
Naturalmente, a utilização desses espaços sociais como espaços escolares,
sobretudo no ensino fundamental e médio, é extremamente difícil, sobretudo
nas grandes cidades. Metaforicamente, poderíamos dizer que os museus são os
canteiros de obras e serviços para a prática educacional. Qual seria uma nova dinâmica para a escola
de formação de professores? Eu vejo a escola voltada para um ambiente próximo
a uma assembléia de aprendizado, onde idéias, originárias de experiências e
situações fora da aula, são expostas pelos alunos [palestrantes], discutidas
pela classe e o professor serve como moderador. Breves exposições de natureza
teórica devem ser, ocasionalmente, inseridas pelo professor nas discussões.
Criar um mecanismo de condução dessas assembléias, discutida e acordada pelos
participantes, é um importante aspecto da educação. A sociedade moderna exige, mais e mais,
participação ativa de todos os interessados na tomada de decisões. Na prática
docente isso se manifesta na elaboração do aprendizado. O conhecimento
congelado, já elaborado, não mais será conduzido via um professor detentor
desse conhecimento, apoiado na autoridade intrínseca ao “ser professor”, como
era característico da educação de antanho. Hoje, é fácil reconhecer que a autoridade
do professor, baseada naquilo que ele sabe, é frágil. Pois ele sabe muito
pouco! Qualquer aluno atento e curioso constata que o conhecimento do
professor é muito limitado e desatualizado. Igualmente o conhecimento que
está congelado nos livros. A informação, ou conhecimento congelado, é mais
abundante e ampla e mais atualizada nos novos meios de armazenamento de
informação: Internet, CD-Rom’s, disquetes, vídeos. Além disso, esses meios,
muito ágeis na disseminação de informação, só são ativados em função da
demanda. O ponto que recebe mais críticas nessas
propostas refere-se ao conhecimento básico. Esse argumento é freqüentemente
usado por aqueles que defendem uma educação tradicional, baseada na
necessidade de assimilação, pelo aluno, de conhecimento organizado em etapas,
correlacionadas com faixas etárias. [7] Essa aquisição de conhecimento é fortemente
propedêutica, isto é, que se justifica por servir para uma etapa seguinte.
Não há apoio para isso nas modernas teorias de aprendizagem. Além disso, está
comprovado que os professores não tem qualquer idéia sobre o porque dos
conteúdos assim organizados nos programas.
[8] O novo professor: comentarista crítico e animador cultural Como será o novo professor para a nova
educação que se descortina? [9] Naturalmente, a organização das disciplinas
deverá ser liberada do seqüenciamento em etapas e divisões de conhecimento
que a tradição impôs. Infelizmente, a lógica de encadeamento que prevalece
nos cursos tradicionais, sugere que se dê maior atenção ao encadeamento do
que ao fato ou ao fenômeno que é foco da discussão naquele momento. A nova educação não
se limita a indivíduos em idade escolar. A enorme mudança no conhecimento faz
com que a volta à escola seja tão importante quanto a freqüência à escola nas
idades adequadas. Isto é particularmente importante no que se refere a
diplomas que tem um caráter de terminalidade, dando credenciamento definitivo
para uma profissão. Há indicadores que diplomas serão desvinculados de
credenciamento profissional. Deverá prevalecer algo como uma pós-graduação continuada
e permanente. Mais uma vez me refiro aos espaços
extra-escolares, como por exemplo museus, que oferecem uma oportunidade única
de educação continuada e permanente. A principal vantagem sobre os cursos
mais usuais, tais como pós-graduações em latu
e stricto sensu, é o fato de os
cursos oferecidos extramuros permitirem que o adulto aprenda no seu próprio
ritmo, num ambiente que mostra seus problemas e deficiências, que evoca
recordações ou fantasia e que recorre a múltiplas emoções e estímulos
sensoriais. A não existência de um programa a ser cumprido dá à experiência
possibilidades de se ramificar para várias áreas de conhecimento. Esse
espaço, que chamo extramuros, tem como exemplos ambientes naturais, como o
local de trabalho, e ambientes artificiais, como por exemplos museus e
parques temáticos. Em muitas comunidades, a criação de um museu representa um
acontecimento cultural na cidade, abrindo inclusive as portas da universidade
para a comunidade em geral. [10] No caso de museus e parques temáticos, que
reputo da maior importância na nova educação, é importante o aspecto
multicultural que deve permear sua organização. Na sua vocação, o museu e o
parque temático devem ser transculturais e transdisciplinares. Eles focalizam
fatos e fenômenos não como a culminação de princípios e verdades básicas
aceitas, como é o caso do desenvolvimento de conteúdos programáticos. Ao
contrário, princípios e verdades são a conseqüência de uma análise crítica de
uma multiplicidade de fatos e fenômenos, o que caracteriza a
transdisciplinaridade. Neste momento de crescente utilização de Internet, os museus oferecem novas
possibilidades. A ida ao museu se torna muitas vezes dispensável para a
utilização de seu acervo. Isso cria um grande espaço para criatividade.
Participar da obra criada, penetrando nos seus detalhes e, muitas vezes
arranjando o que parece terminado, oferece inúmeras possibilidades cognitivas
e criativas. Mesmo do ponto de vista histórico, entender os processos
criativos de outras gerações é altamente estimulante. [11] Nos últimos tempos têm surgido algumas
variantes dos museus e parques temáticos através do aproveitamento de espaços
empresariais superados e edifícios públicos e a intensificação do turismo
ecológico. O aproveitamento de espaços empresariais superados,
como armazéns, estações, edifícios públicos, é muito importante. Em São
Paulo, são notáveis a Estação Ciências e recentemente a Estação Júlio
Prestes. Praticamente todas as cidades do interior têm um espaço público
abandonado e não aproveitado. A recuperação desses espaços para utilização
como museus é algo que deveria ser prioritário nas comunidades. Os parques temáticos podem ser vistos como
variantes dos museus. Sítios de fósseis, como o dos dinossauros situado em
Peirópolis, Uberaba, MG, e várias reservas ecológicas, são exemplos de
parques temáticos. Intimamente relacionado com os parques temáticos está o
turismo ecológico. Com a expansão da indústria do turismo, mais e mais oportunidades
de visitas a grandes parques passam a ser uma opção educacional. Cabe aos
sistemas escolares incorporar isso nos seus currículos. Por exemplo, uma
semana de visita à Pedra do Baú, na Serra da Mantiqueira, poderia se
constituir no foco de todo um semestre de atividades escolares. O argumento
do custo elevado de tal programação é falso. Devidamente planejado, com
escolha adequada de lugares, essas atividades seriam perfeitamente
assimiladas no orçamento de uma escola. Sem qualquer insinuação de cinismo, a
visita a um grande lixão nas comunidades pode ser enquadrada nas modalidades
parque temático e turismo ecológico. Com o grande desenvolvimento e interesse
pela tecnologia, parques temáticos modelados na Disneylândia estão
proliferando. São empreendimentos altamente lucrativos, associados a um
turismo cada vez mais acessível. Isso começa a proliferar no Brasil. O Beto
Carrero World está permanentemente lotado. E outros parques similares começam
a ser anunciados. Todos têm uma forte presença de tecnologia. O
aproveitamento desses ambientes como espaços educacionais é algo que não pode
ser rejeitado. As universidades podem e devem ter
importante participação no aproveitamento e gestão desses espaços
comunitários. [12] Do mesmo modo, não deve ser rejeitado o
trabalho sobre filmes e programas de televisão, particularmente aqueles
focalizados na tecnologia do futuro, muitas vezes chamados ficção científica.
Muito pelo contrário, estes devem ser foco de reflexões, no estilo do que
propus no início deste trabalho. A ficção científica, que se assemelha em
muito ao conceito de museu, é igualmente algo a ser trabalhado. A criação de
situações fictícias, trabalhar com hipóteses imaginadas, é uma excelente
introdução aos estudos de ciência. Particularmente grave tem sido o declínio
no ensino de ciências e matemática, ambos fundamentais para o mundo moderno.
Sabemos que a criança nasce com talento científico e matemático naturais,
manifestado nas capacidades de observar, comparar, classificar, experimentar,
interpretar acerto e erro, descobrir, e muitos outros comportamentos. Cabe ao
educador estimular essas capacidades. Nessas novas modalidades de aquisição de
conhecimento surge, de modo essencial, a crítica ao que se viu, ouviu, leu,
observou, imaginou. Uma das características dos conteúdos programados é
exercer essa crítica ao elaborar o programa. Só está no programa aquilo que,
por razões diversas, a sociedade acha que é importante conhecer. Essa função
de filtrar conhecimento intrínseca ao programa. Numa situação de currículo aberto, essa função é exercida
pelos comentários críticos, que é uma nova função do exercício docente. Recorro a um outro setor da sociedade para
ilustrar essa idéia, que é o trabalho de comentaristas de rádio e televisão.
Por exemplo, o locutor de futebol na rádio deve informar sobre o desenrolar
do jogo [transmite conhecimento]. No momento do jogo há quase nenhum espaço
para comentários. O locutor de futebol na televisão não tem necessidade de
informar sobre o jogo. O público está vendo. Com isso ele passa a ter um
espaço para comentários simultaneamente ao desenrolar do jogo. Um outro
exemplo. No Jornal Nacional, da TV
Globo, essa é a função de Arnaldo Jabor. E na Rádio Cultura de São Paulo, no
programa Diário da Manhã, Salomão Schwartzmann tem essa função. Eles
não dão as notícias, mas tecem comentários sobre o conhecimento [notícia] já
adquirido pelo público. Da mesma maneira, também o professor tem
uma nova função. O aluno aprende de várias maneiras, a grande maioria fora do
ambiente escolar. O professor não é essencial nesse processo. No entanto,
esse conhecimento é fragmentado, disperso e muitas vezes não focalizado. Cabe
ao professor, como comentarista crítico, dar sentido às inúmeras informações
recebidas em condições muito distintas e, naturalmente, sem um foco
pré-definido. Essa riqueza de informações, obtida de forma caótica, deve
produzir conhecimento focalizado numa ação nova. Orientar nessa ação é a
função do comentarista crítico. Vou agora examinar uma outra função nova
para o professor num espaço educacional ampliado, que é a de um animador
cultural. O aproveitamento dos vários espaços e oportunidades que surgem, já
mencionados acima, exige uma formação especial. Muito próximo a isso é a
função de um guia turístico moderno, que é uma profissão em ascensão. Uma modalidade de animador cultural é a do
professor de cursinho. Uma outra modalidade vem surgindo nos grupos de estudo
e cursos livres, como por exemplo a UNIPAZ, na figura do facilitador. A
grande diferença é que o professor de cursinho tem como objetivo passar um
conteúdo pré-determinado e o facilitador se pauta por vivências e práticas
muito dirigidas. A transformação do professor em animador
cultural é semelhante ao que se nota nas igrejas cristãs emergentes e na
crescente aceitação de tendências carismáticas na Igreja Católica. Alguns
sacerdotes exemplificam muito bem essa ação do animador cultural professando
uma fé ou uma doutrina. O professor animador cultural trabalha com
conteúdos abertos, aproveitando o ambiente natural, cultural, social,
imaginário para gerar conhecimento. O professor do futuro será valorizado pela sua ação como
animador cultural e comentarista crítico. O professor que vê sua missão como
ensinador de um conteúdo disciplinar tem seus dias contados e rapidamente
será substituído por um vídeo ou um CD-Rom ou alguma nova peça de tecnologia
ainda em desenvolvimento. A
formação do professor deve contemplar esse novo papel do professor numa nova
educação. |
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Notas |
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[1] Professor Emérito da
Universidade Estadual de Campinas; Professor Visitante Sênior da FURB,
Blumenau. [2]
Mihaly Csikszentmihalyi: Education
for the Twenty-First Century, Dædalus
124 (4), Fall 1995. [3] Ver meu livro Ubiratan D`Ambrosio; Educação para uma Sociedade em Transição, Papirus Editora,
Campinas, 1999. [4] Conforme proposto no livro
acima. [5] Um número recente [vol.128, n.3,
Summer 1999] da prestigiosa revista Dædalus, órgão da American Academy of
Arts and Sciences, é inteiramente dedicado ao tema “America’s Museums”. [6] Destaco o Laboratório de Ensino-Aprendizagem da Matemática e Ciências
Físicas e Biológicas da Universidade Federal do
Paraná, criado e dirigido pela Professora Ettiène Guérios De Domenico em
1985. Um importante estudo
da repercussão desse laboratório na formação de alguns gerações de professores, até
1999, constitui a tese de doutoramento
de De Domenico, a ser defendida na Faculdade de Educação da
UNICAMP. [7] Faço uma discussão sobre isso no livro Ubiratan D`Ambrosio:
Etnomatemática. A Arte ou Técnica de Conhecer e
Entender, Editora Ática, São Paulo, 1990. [8] Ver a esse
respeito a tese de doutoramento
de Regina Luzia Corio de Buriasco: “Avaliação em Matemática: um estudo das respostas de alunos e professores”, Universidade
Estadual Paulista, Campus de Marília,
1999. [9] Chamar “nova educação” não é de todo apropriado. Propostas nessa direção já se encontram na Yaznaya Polyana,
de Lev Tolstoy
(1828-1914), na Pedagogia
Waldorf, de Rudolf Steiner
(1861-1925), na Summerhill
School, de Alexander Sutherland
Neill
(1883-1973), na Escola Ativa, de John Dewey
(1859-1952). [10] Menciono a dissertação de Mestrado em Ensino de Ciências (UNICAMP/OEA/1981) de Bonifácio
Pires Franklin, intitulada “Criação e Implementação do Museu de Ciências Naturais da Universidade
Federal do Piauí”, orientada por Fernando Dias de Ávila
Pires. [11] É interessante uma visita ao site http://www.museo.unimo.it/labmat [12] Em
1983 orientei a dissertação
de Mestrado em Ensino de Ciências
(UNICAMP/OEA) de José Maria Gurgel intitulada ”Uma Experiência para o Ensino de Ciências, levando em conta a realidade
sócio-cultural do nordeste brasileiro.”
Essencialmente, foi a análise da implementação de um centro de ciências situado num espaço ecológico de Cajazeiras, Paraíba. |
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Movimento |
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