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Pessoas e povos movimentam-se atualmente pelo globo terrestre, forçados ou não, física ou virtualmente pela Internet. Não somente palestinos, curdos, turcos, latino-americanos, forçados por problemas políticos e econômicos em seus países de origem, mas também turistas, diversos tipos de profissionais, estudantes, etc., formando uma tendência que caracteriza os tempos pós-modernos, na opinião de Michel Maffesoli, professor na Sorbonne Paris V. Esse é o tema de seu livro Sobre o Nomadismo, Vagabundagens Pós-Modernas
(Record, 108 págs., R$ 21).
Para ele, trata-se, entre outras coisas, de um retorno da tendência nômade
no homem, em oposição a toda e qualquer forma de sedentarismo, uma espécie de opção, seja para
que se possa escapar do cotidiano, seja para que se possa inová-lo. Ele lembra, nesta entrevista por telefone, o sociólogo Gilberto Freyre, que fala sobre nômades que chegaram ao País: “São vagabundos, condenados pela Justiça, etc. e ao mesmo tempo é graças a essa espécie de barbárie que o Brasil pôde existir.”
Estado:
O que é em princípio o
nomadismo? Pode-se encará-lo como uma característica inerente a todos os seres humanos ou é uma tendência que retorna?
Maffesoli:
Se pusermos em perspectiva, observando em longa duração o que aconteceu, vemos como aquilo que se chama, de uma certa maneira, de modernidade (quando falo de modernidade não é o que começou no século 17, mas o que caracterizou – na tradição judaico-cristã – a tradição ocidental), civilizou o mundo, fazendo-o entrar no grande mito do progresso. Nessa perspectiva progressista se evacua tudo o que se considera como arcaico. Minha hipótese é de que se assiste atualmente a um retorno desses arcaísmos fundamentais na pós-modernidade: o primeiro, a oposição ao trabalho, o prazer; o segundo é o das
tribos e o terceiro é o
nomadismo. Uma das marcas da pós-modernidade é o retorno da errância.
Estado:
O senhor citou a busca do Graal na sua obra – como se essa busca fosse ainda um processo contínuo (as
vagabundagens pós-modernas). O senhor acha que o homem contemporâneo é ainda uma espécie de cavaleiro à procura de aventura? Em que sentido?
Maffesoli:
Para tentar compreender o que me parece ser o retorno da errância e do
nomadismo, é preciso encontrar imagens antigas: o Graal, para
mim, é uma comparação. Quer dizer que finamente se vê, como no século 19, século moderno por excelência, o que havia predominado – e isso creio que os trabalhos de
Michel Foucault mostraram muito bem – o que se pode chamar
de “filiação à residência”. Temos um endereço, uma identidade, um trabalho, uma canalização da sociedade, eis como as pessoas foram
enquadradas. Há atualmente uma superação
dessa assimilação e para dar conta disso acho que a imagem do Graal é interessante, porque retoma a aventura; era uma maneira de partir
para a aventura, em busca do mítico Graal (não se sabe o que é exatamente o Graal). Mas minha idéia é a sede do infinito. Para entender essa sede de infinito, que é não ficar fechado numa profissão, numa família, nem mesmo num sexo, tomo a imagem do Graal, para
sair de tudo isso. Ultrapassamos a cerca que nos foi imposta pela identidade moderna.
Estado:
O urbanista francês Paul Virilio prevê para este século uma tragédia que é uma luta anterior à luta de classes: a dos sedentários (pessoas que estão em casa, em qualquer lugar, graças aos celulares e computadores, etc.) contra os nômades que nunca estão em casa (os
desempregados, os sem-teto). O que o senhor acha?
Maffesoli:
Eu não falaria mais nesses termos de luta de classes, de castas. Acho que essa temática é muito moderna, pois pertence ao que era a grande tradição, exprimindo-se bem
numa perspectiva política. Eu concordava, mas não concordo mais. Quando penso no retorno do
nomadismo, sei que há, ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico. Um dos elementos desse
nomadismo é a Internet, isto é, como se vai reutilizar a tela para, de uma maneira horizontal, entrar em contato com pessoas, participar de fóruns de discussões filosóficas, pesquisas sexuais, espirituais... Uma das definições que atribuí à “pós-modernidade” é a sinergia entre o arcaísmo e o desenvolvimento
tecnológico. É verdade que o nomadismo é uma boa ilustração disso. Simultaneamente estou em casa diante do computador e
posso estar ligado aos quatro cantos do mundo em função de meus gostos. É uma espécie de contração do tempo e do espaço.
Estado:
Poderíamos encarar o
nomadismo como uma situação positiva, porque ele é contra o conformismo, e negativa ao mesmo tempo, porque é uma espécie de retorno à barbárie?
Maffesoli:
Não gosto de dizer que alguma coisa é boa ou ruim. Eu me recuso sempre a fazer
um julgamento de valor, minha posição é fenomenológica, faço uma constatação de alguma coisa. Esse nomadismo pode permitir formas de solidariedade muito fortes, um desenvolvimento caritativo, por exemplo, que mostra o melhor. Ao mesmo tempo temos o pior: novos desfavorecidos, novas formas de violência... Mas a nós, universitários, não cabe dizer que é negativo ou positivo.
Estado:
Gostaria de citar um outro escritor francês, Michel Tournier. Ele associa a
oposição nomadismo/sedentarismo aos movimentos
totalitários: “Essa luta constante entre nômades e sedentários revestiu outros aspectos. (...) Mais recentemente viu-se a ideologia nazista celebrar a comunhão do homem com sua terra (...) e destinar à destruição os ciganos e judeus, nômades ‘sem eira nem beira, portanto sem fé nem lei’ (slogan nazista).” O senhor acha que há uma tendência de encarar, como escreve Tournier, o nômade como vagabundo, como ser perigoso para a sociedade?
Maffesoli:
Vou ser um pouco mais provocador. Os nômades são um retorno à barbárie, mas de uma certa maneira a barbárie me parece interessante. De um certo modo, os bárbaros
mostram que há alguma coisa de sempre aventureiro na existência. Não se pode ficar estabelecido, fechado; os bárbaros trazem um sentido novo. Os bárbaros
permitem fecundar. Há belas páginas de Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala, em que fala de nômades que chegam ao Brasil, são vagabundos, condenados pela Justiça, etc. e ao mesmo tempo é graças a essa espécie de barbárie que o Brasil pôde existir.
Estado:
Como o senhor vê a correspondência entre nomadismo
e tendência à mistura, à mestiçagem?
Maffesoli:
Gosto muito do Brasil, vou sempre ao País. Sou um apaixonado pelo Brasil, não um especialista. Digo que o Brasil é um tipo de cadinho da
pós-modernidade, um laboratório como a Europa foi o laboratório da modernidade. Justamente porque há esse lado da mestiçagem, a grande tendência que se vai desenvolver na pós-modernidade, não mais o encerramento dentro de uma identidade precisa, mas a mistura. Os brasileiros vão sempre dizer que não é assim tão simples, mas acho que há uma atitude
muito mais desconstraída, uma grande tolerância. Em termos filosóficos: digo que o que é interessante é o relativismo, ou seja, o fato de pôr em relação as raças, as opiniões, etc. Acho que o Brasil é muito relativista, contra o que foi a idéia do universalismo. Vejamos a idéia de universalismo dos filósofos franceses do século 18. Decretava-se que havia um valor elaborado num determinado lugar e que era exportável para todo canto. De outro lado, o relativismo admite que há culturas diferentes que se relacionam tanto bem quanto mal.
Estado:
Há povos mais nômades que outros ou o nomadismo
pode ser uma norma na pós-moderindade?
Maffesoli:
Eu digo que
a modernidade é o “ou-ou” enquanto
a pós-modernidade é o “e-e”, eu
sou “isto e aquilo”.
Eu acho que ainda
não é a regra, mas
é uma tendência antropológica que
retoma atualmente com
um forte vigor.
Um fenômeno fundamental
da humanidade. Em certos
momentos, essa tendência
é minorada. Foi o caso dos séculos
18, 19 e 20. Em outros
momentos, essa tendência
volta à cena e aí
todo mundo fica
contaminado. Eu não
diria que há povos mais
ou menos nômades,
diria que alguns
acolhem mais facilmente essa tendência.
Por exemplo, o Brasil, com sua história de multiculturalismo, é mais receptivo.
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