Pensamento Antropológico
Todo estudo centrado em Antropologia Cultural está embasado em quatro enfoques interdependentes, co-geradores de uma única visão global e complexa da realidade humana:
. Anthropos . Ethnos . Oikos . Chronos .
Anthropos:
A mulher. O homem. A realidade individual; a natureza humana primordial.
Ethnos:
A nação. O povo. A realidade coletiva; a sociedade interAtiva das mulheres e dos homens.
Oikos:
A casa. O território. O espaço natural; o ambiente de vivência.
Chronos:
O tempo. O fluxo. O transcurso natural; a "pulsação" cósmica.
Dos quatro enfoques, co-dependentes, pode-se esboçar o conceito de cultura numa abordagem etno-antropológica, demarcando o "território" do pensamento antropológico.
Cultura:
O complexo da sociedade interAtiva das mulheres e dos homens no tempo e no espaço.
A construção-reconstrução das realidades individual e coletiva das mulheres e dos homens*, imersos em seu espaço de vivência, no transcurso natural de suas existências.
* O reforço dado a expressão "das mulheres e dos homens" tem a intenção, óbvia, de valorizar nossas duas naturezas humanas, tanto na busca das igualdades desejadas, quanto na compreensão das nossas diferenças inatas.
A Antropologia Cultural, que hoje deixou de pesquisar somente as sociedades primitivas para dedicar-se também às sociedades complexas, como as urbanas, possibilitou excelentes contribuições aos estudos pedagógicos. Na Itália, o Grupo Nacional Antropologia Cultural, do Movimento de Cooperação Educativa, centrado na pedagogia de Célestin Freinet, fundamentou-se nessa direção. Reproduzimos a seguir, em tradução livre do italiano, trechos desse documento que nos deu a certeza do caminho a percorrer na construção de um movimento de pedagogia fundamentado em bases etno-antropológicas.
Dossiê MCE `88
"Um educador que se orienta através de uma pedagogia popular precisa dispor de instrumentos que o ajudem a entender o surgimento das necessidades individuais e sociais, para entrar em perfeita comunhão com a cultura dos jovens com quem atua.
O MCE escolheu a direção da Antropologia Cultural porque esta lhe garante uma visão global do estudo do homem e um método interdisciplinar já amadurecido por suas investigações.
O uso da ciência humana na escola não se deve limitar a uma pesquisa particular (individual) e a aplicação de um só método de leitura e interpretação. Mesmo quando nos ocupamos do campo lógico-matemático, que tem um modo próprio de proceder, devemos saber ver o sentido cultural do aprendizado em relação ao patrimônio da própria criança.
Se queremos uma escola diversa daquela que aí está é preciso deixar claro quais são os seus objetivos e conteúdos, confrontando continuamente nosso projeto com aquele da cultura oficial."
Damos, do mesmo dossiê, outros pontos básicos para a fundamentação da própria Etnopedagogia:
O relativismo das culturas
"É importante não considerar óbvio o modo como vivemos e pensamos; é preciso reconhecer que a verdade não é única; é preciso conhecer o 'diverso', seja nas sociedades distantes no tempo e no espaço, como dentro da nossa própria realidade."
A leitura do território
"Saber redesenhar os sinais materiais do território, os traços concretos da sua história, talvez evidentes nos objetos, nas estradas, nas casas , talvez cancelados, modificados, reaproveitados e, portanto, prontos a serem descobertos. Saber recolher a memória dos que habitam o território para encontrar os elementos de ruptura e de continuidade do passado. Saber reconhecer e revitalizar, para além do óbvio, a visão pessoal do ambiente em que se vive."
O imaginário
"Numa sociedade em que o imaginário é considerado não-realidade, pura fantasia, é preciso reconhecê-lo como um instrumento de conhecimento riquíssimo, um modo de organização e produção de experiências, repertório de símbolos, de fabulações, de representações do mundo estratificadas na história. É preciso saber, sobretudo, que o imaginário é ativado, desenvolvido, em harmonia com outros tipos de compreensão e de atividade criativa."
A dimensão histórica
"A dificuldade de renovação didática da história é aumentada pela resistência dos adultos em abandonar o transcurso da história tradicional, que já tem fixado os critérios de seleção das coisas do passado consideradas importantes. Rever esses critérios é, de fato, uma operação bem embaraçosa e requer grande empenho no campo ideológico, porque a história é um grande canal de condicionamento cultural. Para tanto, é preciso partir da história pessoal, da micro-história do território, das outras culturas e inclusive dos próprios conteúdos do imaginário, onde se encontram elos importantes do passado recente e distante."
Etnopedagogia