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TEXTO SELECIONADO NA MÍDIA IMPRESSA

 

São Paulo, domingo, 31 de março de 2002 Folha de S.Paulo - FOLHAmundo

Por uma globalização plural

Edgar Morin

Especial para o "Le Monde"

A nave espacial Terra é movida por quatro motores associados e, ao mesmo tempo, descontrolados: ciência, técnica, indústria e capitalismo.

A globalização pode ser vista como a última fase de uma planetarização tecno-econômica.

Ao mesmo tempo, ela pode ser vista como a emergência caótica e desigual de um embrião de sociedade-mundo. Uma sociedade dispõe de um território que comporta um sistema de comunicações. O planeta se encontra, hoje, dotado de uma textura de comunicações (aviões, telefone, fax, Internet) como nenhuma outra sociedade do passado jamais teve.

Uma sociedade inclui uma economia. A economia atual é mundial, de fato, mas lhe faltam as restrições de uma sociedade organizada (leis, direito, controles). E as instituições mundiais atuais, o FMI e outras, são incapazes de efetuar as regulamentações necessárias.

A sociedade é inseparável da civilização. Existe uma civilização mundial, saída da civilização ocidental, que desenvolve o jogo interativo da ciência, da técnica, da indústria e do capitalismo e que comporta um certo número de valores padronizados. Ao mesmo tempo em que comporta múltiplas culturas em seu seio, uma sociedade também gera uma cultura própria.

Acontece que existem múltiplas correntes transculturais que irrigam as culturas, ao mesmo tempo em que as superam, e que formam algo que quase chega a ser uma cultura planetária. Mestiçagens, hibridizações, personalidades biculturais (Rushdie, Arjun Appadura) ou cosmopolitas enriquecem essa via transcultural de maneira incessante.

No decorrer do século 20, as mídias produziram e difundiram um folclore mundial a partir de temas originais saídos de culturas diferentes, às vezes dotadas de recursos próprios, às vezes sincretizadas.

É notável o fato de que as máquinas culturais formidáveis do cinema, da canção, do rock e da televisão, animadas pelo lucro e organizadas numa divisão quase industrial do trabalho, sobretudo em Hollywood, tenham conseguido produzir algo além de obras medíocres e conformistas. Existe e existiu criatividade em todas essas áreas.

Um folclore planetário se constituiu e se enriquece com as integrações e os encontros. No que diz respeito à arte, à música, à literatura e ao pensamento, a globalização cultural não é homogeneizadora. Ela é feita de grandes ondas transculturais que favorecem a expressão das originalidades nacionais em seu seio.

A mestiçagem recriou a diversidade, ao mesmo tempo favorecendo a intercomunicação. O jazz começou como híbrido afro-americano, produto singular de Nova Orleans, que se expandiu pelos Estados Unidos, passando por diversas mutações, sem que os novos estilos fizessem desaparecer os estilos anteriores. Assim, o jazz se tornou uma música negra e branca, ouvida, dançada e depois tocada também por brancos, e, sob todas suas formas, espalhou-se pelo mundo, tanto assim que o velho estilo de Nova Orleans, aparentemente abandonada em seu local de origem, renasceu em Saint-Germain-des-Prés, retornou aos Estados Unidos e se estabeleceu em Nova Orleans mais uma vez.

Depois do encontro do "rhythm and blues", é na esfera branca que o rock surge nos Estados Unidos, para em seguida se espalhar por todo o mundo e em todas as línguas, a cada vez assumindo uma identidade nacional. Hoje em dia dança-se, festeja-se e comunica-se rock em Pequim, Cantão, Tóquio, Paris ou Moscou, e os jovens de todos os países dançam ao mesmo ritmo, em todo o planeta.

A difusão mundial do rock também levou ao surgimento, em diversos lugares, de novas originalidades mestiças, como o "raí", e, finalmente, com o rock-fusion, surgiu uma espécie de caldeirão rítmico onde se misturam as culturas musicais do mundo inteiro. Assim -às vezes para pior, mas freqüentemente também para melhor, e sem se perderem-, as culturas musicais do mundo inteiro se fecundam umas às outras, sem, entretanto, saber que estão gerando filhos planetários.

Por outros motivos, como em toda a sociedade, criou-se um underground -mas, desta vez, planetário- com sua criminalidade própria. Desde os anos 1990, existe uma máfia intercontinental (que trabalha especialmente com o tráfico de drogas e a prostituição). E o 11 de setembro de 2001 trouxe à tona a existência de uma rede terro