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Página do site oficial de Ubiratan D`Ambrosio |
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Reminiscências pessoais de minha atuação enquanto Presidente do Comitê Interamericano de Educação Matemática/CIAEM Ubiratan D’Ambrosio Farei primeiramente um relato dos anos que precederam minha entrada como participante ativo do Comitê Interamericano de Educação Matemática e depois como seu Presidente, de 1979 a 1987. Não se trata de uma história do CIAEM nem de minha atuação na presidência da organização. Essas são memórias pessoais, algumas com, aparentemente, pouca relação com as atividades do CIAEM. Efetivamente todas as atividades que relato a seguir foram facilitadas pela minha posição de Presidente do CIAEM e, inegavelmente, trouxeram benefícios para minha atuação nessa função. O CIAEM/Comitê Interamericano de Educação Matemática foi fundado em 1961, por iniciativa de Marshall Stone, então Presidente do ICMI (International Comittee of Mathematical Instruction). Uma história do CIAEM foi recentemente publicada, numa edição bilíngüe: La História Del Comitê Interamericano de Educación Matemática/The History of the Inter-American Committee on Mathematical Education, de autoria de Hugo Barrantes e Angel Ruiz [Academia Colombiana de Ciências Exactas, Físicas y Naturales, Bogotá, 1998]. Vejo como as principais razões para a criação do CIAEM a intenção de regionalizar as discussões sobre Educação Matemática e, ao mesmo tempo, dar uma maior presença dos Estados Unidos na América Latina. A UNESCO havia aberto uma Oficina Regional de Ciências e Tecnologia para a América Latina e Caribe (ORCTALC), em Montevidéu, e a Organização dos Estados Americanos (OEA) procurava expandir seus programas. Ao mesmo tempo foram criados Comitês Interamericanos de Educação em Biologia, em Física e em Química. Parece que esses últimos tiveram vida curta. Quando foram realizadas as 1ª CIAEM/Primeira Conferência Interamericana de Educação Matemática, em 1961 em Bogotá, e 2ª CIAEM, em Lima em 1965, eu não estava muito envolvido com Educação Matemática. Eu lecionava na State University of New York, em Buffalo, Estados Unidos, e minha atividade central era a matemática. Minha área central de pesquisa era Cálculo das Variações e Teoria da Área, e eu começava a me interessar pelo conceito de tempo, particularmente pela estrutura algébrica. Procurava encontrar os fundamentos do relacionamento espaço/tempo. Acho que meu interesse pela História das Ciências começa aí. Naturalmente, para fazer pesquisa em Cálculo das Variações e Teoria da Área já se fazia necessário uma boa entrada na História da Matemática. O ambiente na SUNY/Buffalo na década de sessenta era muito estimulante. Desenvolvi interesse nos temas interdisciplinares e me envolvi muito com o grupo de pesquisadores sobre o novo pensar nas ciências, que começava a se desenvolver na universidade. Haviam sido contratados Ludwig von Bertalanffy (Teoria Geral dos Sistemas), James Danielli, um dos pioneiros da Biologia Molecular, John Eccles e Charles Waddington, pioneiros nas chamadas Ciências da Mente. Havia excelentes grupos de Lingüística Computacional e de Música, liderados respectivamente por David Hays e Lukas Foss, e de Crítica Literária, focalizando principalmente o pensamento crítico francês, como Alan Badiou, Jacques Lacan e Michel Foucault, que fez uma série de seminários na universidade. Na Matemática, tínhamos muitos visitantes. Particularmente importantes foram Kasimir Kuratowicz, Alexander Grothendieck, Alexander Ostrowski e Gail Young. Com eles desenvolvi um excelente relacionamento. Eu era na época coordenador do programa de pós-graduação em Matemática. Tínhamos 60 estudantes para o PhD, todos com bolsa. Além disso, eu coordenava um programa de pós-graduação em Ciências Naturais, que foi pioneiro como pós-graduação interdisciplinar, enfocando, sobretudo, estudos ambientais. Isso facilitou o relacionamento com todos esses cientistas, que estavam propondo um novo pensar. Acho que aí têm origem as idéias sobre transdisciplinaridade que eu viria desenvolver cerca de 15 anos após. Meu interesse pela Educação Matemática nessa época era reduzido. Participei de todos os Congressos Internacionais de Matemáticos, desde 1966 até 1990, e das reuniões da American Mathematical Society, sempre apresentando trabalho e com alguma função. Mas não participei dos Congressos Internacionais de Educação Matemática, nem das reuniões anuais do National Council of Teachers of Mathematics. Gradativamente fui me envolvendo mais com Educação Matemática e Ensino de Ciências. Em 1968 aconteceu algo importante na minha trajetória acadêmica. A State University of New Yok, assim como outras universidades americanas, resolveu adotar um sistema de quotas na admissão de novos alunos. Todas as admissões deveriam ter 25% de estudantes negros. Isso incluía pós-graduação. Isto significava que dos 60 alunos que seriam admitidos no programa de PhD, 15 deveriam ser negros. Um desafio. Como encontrar 15 bons candidatos negros? Foi necessário um recrutamento nas universidades negras, na sua maioria no Sul dos Estados Unidos. Tive assim uma boa oportunidade de conhecer o sistema universitário americano, não apenas me restringindo às grandes universidades, aquelas normalmente procuradas pelos estudantes brasileiros que vão para fazer o PhD nos Estados Unidos. Consegui os 15 candidatos. Houve inúmeras dificuldades na condução do programa, mas, no geral, acho que foi enormemente positivo. Meus comentários sobre o sistema de quotas na admissão ficam para um outro depoimento. Assim, comecei a ter uma visão mais ampla do papel social das universidades, de como um sistema educacional pode ser a raiz de iniqüidades sociais e do que pode ser feito para corrigir uma organização perversa da sociedade. Daí vem a origem do meu pensar sobre as dimensões políticas da Educação Matemática. Outro momento privilegiado na minha carreira acadêmica foi um convite para que a State University of New York colaborasse num projeto de pós-graduação altamente inovador que a UNESCO estava iniciando na República do Mali, na África. A universidade indicou-me para integrar a equipe internacional de professores, como responsável pela Análise Matemática. Meus colegas vinham da Califórnia [Lingüística], da França {Física e Química], do Marrocos [Biologia}, da Iugoslávia [Geologia], da Hungria [Geometria], da Inglaterra [Literatura] e mais algumas áreas, de vários países. Foi uma excelente oportunidade de trabalhar num ambiente necessariamente trascultural e transdisciplinar. Meus alunos eram excelentes. Além de me mostrarem qualidades individuais e sociais de uma cultura que, apesar da colonização, conservava parte de sua pureza, também me mostraram que há uma tradição científica e matemática que se mantém, mesmo sendo ignorada e muitas vezes reprimida pelo colonizador. Nessa experiência está o começo de minhas reflexões sobre ciência e cultura, que culminaram no Programa Etnomatemática. Em 1972 decidi voltar para o Brasil e assumi a direção do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação/IMECC, na UNICAMP. Procurei fazer do IMECC uma instituição forte em pesquisa em matemática pura e aplicada, reforçando as áreas tradicionais. Mas também facilitei a abertura de novos espaços acadêmicos e estimulei grupos que já começavam a mostrar distinção. Floresceram a Lógica Matemática, a Biomatemática, a Modelagem Matemática, a Lingüística Computacional, a Inteligência Artificial, entre outros. Novas metodologias foram incorporadas, como a produção de vídeos. E foi muito importante abrir um bom espaço para Educação Matemática. Percebi que a Educação Matemática era prioritário para o Brasil e que eu poderia contribuir muito mais como educador matemático do que como matemático. Praticamente, a partir de então comecei minha trajetória pela Educação Matemática. A Educação Matemática estava começando a se expandir em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Dois Congressos Internacionais de Educação Matemática já haviam sido realizados (em 1968, em Lyon, França, e em 1972, em Exeter, Inglaterra) e na América Latina, além da criação do Comitê Interamericano de Educação Matemática, também duas conferências interamericanas tinham sido realizadas. Pelo seu relacionamento pessoal com Marshall Stone e também por um autêntico interesse em Educação Matemática, o representante brasileiro no comitê era Leopoldo Nachbin. Quando foi anunciada a 3ª Conferência Interamericana de Educação Matemática na Argentina, em Bahia Blanca, resolvi ir. Havia uma boa representação brasileira. A 3ª CIAEM realizou-se em Bahia Blanca, distante de Buenos Aires. A universidade era nova e o seu Reitor era, naquele momento, Ministro de Educação da Argentina. Claro, isso levou a conferência para lá, com muitos recursos e importantes convidados internacionais, sendo o maior destaque Hans Freudenthall. Um episódio hilariante se passou na viagem de ônibus, de Buenos Aires a Bahia Blanca. Rebentou o parabrisa, e fizemos boa parte da viagem tomando vento e uma chuvinha miúda. Estavam no ônibus o Professor Benedito Castrucci, com sua esposa, Dona Ermelinda, e Sergio Lorenzatto. Quando rebentou o parabrisa, os dois assumiram a liderança em tornar a viagem mais alegre, apesar do acidente. Foi divertido, quando os que estavam sentados mais à frente resolveram abrir guarda-chuva. A conferência se desenvolveu muito bem. Nachbin, que era o representante brasileiro no CIAEM, não pode ir. Ele indicou para representá-lo um matemático do Rio, não me lembro se foi Carlos Alberto Aragão de Carvalho ou Guilherme de La Penha ou Luis Adauto da Justa Medeiros. Esse representante, que estava estremecido com os outros, coisa comum na matemática brasileira, teve que retornar mais cedo e pediu-me para representá-lo em algumas funções, na verdade representar o Nachbin por tabela. Com isso, me envolvi com a cúpula do CIAEM. Gente que eu não conhecia. Foi muito bom ter feito um bom relacionamento com o Professor Hans Freudenthal. Alguns anos depois, estive com o Professor Freudenthal na Conferência Internacional sobre "Ensino Integrado de Ciências", promovida pelo ICASE/International Council of Associations of Science Educators e pela UNESCO, em Niejmegen, Holanda, em 1978. Freudenthal era um entusiasta da educação integrada de matemática com as demais ciências. Isso dava a ele uma penetração difícil no cenário internacional da educação matemática. Eu, sofrendo toda sorte de rejeição aqui no Brasil ao defender o ensino integrado da matemática com as demais ciências, me sentia muito confortável com Freudenthal e seu grupo no I.O.W.O, hoje Instituto Freudenthal, em Utrecht. Desenvolvi excelente relacionamento com eles. Um outro episódio interessante envolvendo Freudenthal foi em 1984, quando Lauro de Oliveira Lima convidou-me para ser Presidente do 1º Congresso Internacional de Educação Piagetiana, no Rio de Janeiro. Hans Freudenthal, anti-piagetiano, era um dos conferencistas. Foi interessante, pois nem Freudentahal nem eu éramos piagetianos. Fomos uma dissonância no Congresso, muito embora a conferência do Professor Freudenthal tenha sido um sucesso. Mas o relacionamento mais importante que fiz em Bahia Blanca foi com o Professor Luis Santaló, uma amizade que perdura até hoje. Por seu intermédio estabeleci excelentes relações com a ORCTALC, em Montevidéu, e com importantes matemáticos argentinos. Santaló sobreviveu momentos difíceis na Argentina e sua neutralidade política serviu para importantes pontes com vários outros países. Nos anos 70 e 80, houve uma intensa migração de matemáticos e outros intelectuais, buscando asilo nos países então não sujeitos à ditadura militar. Com todo o horror e desumanidade que esse período representou, uma conseqüência positiva foi um apoio dos países cientificamente mais desenvolvidos, Argentina, Uruguai, Chile e Brasil, aos demais países da América Latina. Igualmente importante foi a presença de cientistas desses países nos Estados Unidos. Efetivamente, a América Latina mostrou as possibilidades de apoio mútuo no campo universitário e da qualidade de seus cientistas. É lamentável que essa integração, motivada pela adversidade, não foi depois aproveitada. Hoje, enquanto Mercosul e ALCA procuram seus caminhos, a cooperação acadêmica na América Latina é frágil e sem qualquer tipo de apoio efetivo. A aceitação, nos centros mais importantes, de bolsistas dos países menos desenvolvidos, acaba se tornando um benefício para os mais desenvolvidos. É uma forma de brain-drain na região, mas não há apoio às universidades mais carentes. Tentamos fazer esse tipo de apoio, na UNICAMP, quando foi instituído o Programa de Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática, com apoio da OEA, de 1975 a 1980. O projeto, embora reconhecido pela OEA como dos mais importantes e produtivos que ela patrocinou, não foi continuado. Esse programa teve grande influência na evolução do CIAEM. A partir de Bahia Blanca, o Professor Santaló foi o Presidente do CIAEM. Embora eu não tivesse uma função no Comitê, participei muito de várias atividades promovidas pelo CIAEM, sobretudo graças às minhas excelentes relações com a UNESCO e com a OEA. Eu já estava muito conhecido na Educação Matemática na Europa e nos Estados Unidos. Por iniciativa de E.G.Begle havia sido convidado para organizar o importante grupo de estudos sobre "Por que ensinar matemática?" no 3º Congresso Internacional de Educação Matemática, em Karlsruhe, Alemanha. Quando se realizou a 4ª CIAEM, em 1975 em Caracas, eu já era bem conceituado na Educação Matemática. Grande América Latina. A delegação brasileira, com 25 participantes, era a maior das visitantes. Eu tive uma atuação intensa. O Professor Santaló, por razões de saúde, não pode comparecer e me indicou para ser o novo presidente do CIAEM. Mas na Assembléia dos representantes dos vários países, Leopoldo Nachbin não pode comparecer e se fez representar por Maria Laura Leite Lopes. Através dela, ele propôs a reeleição do Professor Santaló. Prevaleceu essa indicação e eu fui eleito Vice-Presidente. O Professor Santaló praticamente entregou-me o CIAEM. Como Vice-Presidente organizei o Boletim do CIAEM, que foi publicado regularmente e até hoje é publicado. Em 1976 realizou-se o 3º Congresso Internacional de Educação Matemática, em Karlsruhe. Como coordenador do grupo de estudos sobre "Por que ensinar matemática?" eu havia feito contato com inúmeros matemáticos e educadores de todo o mundo, e dei à minha conferência um cunho histórico, enveredando pelo sócio-cultural. Vem daí meu envolvimento com a história da matemática e das ciências e com a etnomatemática. Com o respaldo de ser Vice-Presidente do CIAEM e conhecer o ambiente acadêmico de muitos países, graças ao meu envolvimento com os projetos da UNESCO e da OEA, tive excelente aceitação ao falar de países até então marginalizados na história da matemática e da ciência. Convidado a participar do Mathematische Forchunginstitute, em Oberwolfach, Alemanha, fiz uma conferência sobre a história da matemática na América Latina, em 1981. Já havia sido convidados duas vezes para participar da prestigiosa reunião de Oberwolfach, a primeira como pesquisador em Cálculo das Variações (1974) e depois como Educador Matemático (1975). Incorporei-me, definitivamente, à história da matemática e das ciências, sendo eleito presidente do International Study Group of the Relations Between History and Pedagogy of Mathematics (HPM), em 1984, e participei da fundação da Sociedade Latino-Americana de História da Ciência e da Tecnologia, em 1982, e depois fui seu Presidente (1988-1992) e da Sociedade Brasileira de História da Ciência, em 1987, tendo sido depois seu Presidente (1991-1993). Em 1979 realizou-se a 5ª Conferência Interamericana de Educação Matemática. Foi uma bela conferência. Dentre os convidados estava Hassler Whitney. Fizemos uma excelente amizade. Quando ele foi eleito Presidente do ICMI/International Commission of Mathematical Instruction, eu fui eleito Vice-Presidente, de 1979 a 1983. Durante a Assembléia dos representantes nacionais, eu fui eleito Presidente do CIAEM e o Luiz Dante o Secretário. Demos continuidade ao Boletim e participamos de inúmeras conferências por toda a América Latina. Nesse próprio ano de 1979 ocorreu algo que veio ter grande influência na minha vida. O CIAEM e o Programa de Mestrado da OEA se ajudavam mutuamente, e com isso eu estava presente em inúmeros eventos na América Latina. Minha presença na Europa e na África era intensa. Minha atuação no ICME 3, em 1976, em Karlsruhe, abordando pela primeira vez questões sócio-culturais ao falar sobre os objetivos e as metas da educação matemática, e logo em seguida minha atuação destacada no ICM/Congresso Internacional de Matemáticos, em Helsinki, Finlândia, deu-me uma visibilidade maior que a de matemático ou educador matemático. Na África, participei da fundação da União Matemática Africana e da Sociedade Africana para o Avanço das Ciências, e de inúmeros outros eventos. Tive várias outras atuações na Ásia. Meu envolvimento com questões de desenvolvimento e suas conseqüências culturais e sociais projetou-me além dos ambiente da Matemática (UMI) e da Educação Matemática (ICMI). Minha atuação internacional era tão intensa que, mesmo não sendo funcionário da UNESCO, eu viajava com o passaporte azul das Nações Unidas. Acho que daí veio o apelido "Ubiratour". Certamente em conseqüência de minha presença e atuação internacional, em 1979 fui convidado para participar do Pugwash Conference on Science and World Affairs, que se realizou no México. A partir de então, fui um membro muito ativo do Pugwash, tendo sido membro do Conselho da organização de 1985 a 1995. Nesse ano, 1995, o Movimento Pugwash recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Eu, como os demais membros do Conselho, fui convidado, com toda pompa, a ir receber, das mãos do Rei da Noruega, o prêmio. A cerimônia, que tinha um programa rígido, exigia fraque e outras coisas cerimoniais. Preferi não ir. Mas, obviamente, fiquei muito orgulhoso pelo reconhecimento do trabalho que o Movimento Pugwash faz pela paz. Um episódio mostra o quanto a dupla capacidade de membro do Pugwash e de Presidente do CIAEM possibilitou ações muito diversas. No início dos anos oitenta, meu relacionamento com a UNESCO fez com que fosse possível arranjar uma visita ao ORCTALC, em Montevidéu, para, na qualidade de Presidente do CIAEM, avaliar o estado da educação matemática no país. Mas o objetivo real era uma visita ao eminente matemático José Luiz Massera, que estava preso incomunicável pelo regime militar, missão que me foi dada pelo Conselho da Pugwash. Nos contatos arranjados pela UNESCO, estive com um General que era Ministro, com um Almirante que era Reitor, e fiz ver a eles, agora em nome da Pugwash, a preocupação da comunidade científica internacional com a integridade física e moral do Professor Massera, reconhecido internacionalmente como um dos maiores cientistas da América Latina. Ouviram-me, garantiram que o Professor Massera estava bem, mas não me permitiram visitá-lo. A comunidade internacional deu, assim, alguma proteção à Massera. Com a volta ao regime democrático, Massera foi libertado e voltou às suas atividades políticas, mas não retomou a importante posição que tinha na pesquisa matemática. Através da combinação de funções no CIAEM e no Pugwasho Pugwash, meu envolvimento internacional, com cientistas de várias áreas, foi muito intenso. A 6ª CIAEM deveria se realizar no México em 1983. Mas devido ao enorme terremoto que abalou o país, a 6ª CIAEM só veio a se realizar em 1985, em Guadalajara, México, onde eu fui reeleito Presidente do Comitê. Essa conferência foi muito importante, pois num jantar em que estavam todos os brasileiros participantes, ficamos surpresos vendo que muitos só vieram a se conhecer em Guadalajara. Éramos cerca de 14. Não me lembro todos os que estavam lá. Nesse jantar, num restaurante que tinha uma enorme mesa redonda, fizemos um pacto de corrigir essa situação assim que chegássemos ao Brasil, fundando uma sociedade. Fizemos uma carta selando esse pacto, que todos os presentes assinaram. Lembro-me de um episódio interessante. Acabado o jantar, pedimos a conta e dividimos a despesa. Pagamos e saímos, depois de muita tequila e alegres por estarmos compromissados a fundar a nova sociedade. Já estávamos todos na rua, quando veio atrás de nós o maître do restaurante e perguntou a alguns de nós se não havíamos gostado do serviço, dizendo que os "mozos" estavam desapontados, pois não havíamos deixado propina! Que vergonha. Logo fizemos uma nova coleta e deixamos uma boa gorjeta. Isso é a pré-história da SBEM. Logo depois de voltar ao Brasil, organizamos uma reunião. Puderam comparecer vários dos signatários e alguns outros que, mesmo não tendo ido ao México, apoiavam a idéia de fundar a sociedade. Não lembro quem estava nessa reunião, que foi no meu apartamento, na Av. Moraes Sales, 326, 24º andar, em Campinas. Alto, pertinho do céu! Deve ter sido no final de 1985 ou no início de 1986. Ali demos início ao processo de fundação da Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Mas isso pertence à história da SBEM. Continuei atuando na Presidência da CIAEM, com muitas atividades pela América Latina. Então, além da ORCTALC, em Montevidéu, a UNESCO havia criado a Oficina Regional de Educação, em Santiago do Chile. A oficina de Montevidéu ficou menos ativa e a de Santiago tornou-se importante apoio para a Educação Matemática. Em 1980, ainda como Diretor do IMECC, sai em afastamento para os Estados Unidos, assumindo a função de Chefe da Unidade de Melhoramento de Sistemas Educativos, Currículo e Metodologia da Organização dos Estados Americanos, em Washington. Era uma posição focal na América Latina e pude examinar a grande maioria dos projetos de educação de todos os países. Havia poucos projetos do Brasil. Recebi então um outro passaporte diplomático, da OEA, e viajei por toda América Latina e Caribe. Sempre dava um jeito de combinar atividades específicas da OEA com coisas da UNESCO, do CIAEM e da Pugwash. Curioso que muitas vezes eu visitava um país em missão da OEA, mas eu tinha bom relacionamento com o pessoal ligado à UNESCO. Geralmente, eram grupos politicamente em oposição, o que muitas vezes me permitia agir como elemento de conciliação. A África e a Ásia não ficaram esquecidas e eu tinha bom acesso a esses países. Sempre uma atividade apoiando a outra. Às vezes, olhando para alguns relatórios das missões que fiz para a UNESCO e para a OEA, eu mesmo fico surpreso de ver como foi possível combinar todas essas ações. Esse período de viagens possibilitou envolver-me com outras áreas de conhecimento, conhecer outros grupos e outras realidades. A idéia de etnomatemática concretizou-se internacionalmente em 1984, na conferência plenária de abertura no 5º Congresso Internacional de Educação Matemática/ICME 5, realizado em Adelaide, Austrália. A etnomatemática revelou-se algo muito controvertido. Certos educadores e matemáticos rejeitaram, e alguns ainda rejeitam, totalmente a idéia. Eu ter ficado identificado com a palavra etnomatemática deve ter causado algum desconforto e muitos colegas, de várias partes do mundo, têm proposto nomes diferentes para a mesma idéia. O fato inegável é que a etnomatemática tornou-se uma direção de crescente importância na história, educação e filosofia matemática. Levado pela etnomatemática e pela experiência transcultural, proporcionada pela minha grande mobilidade ao ser ativo em vários organismos internacionais, enveredei para reflexões mais abrangente da problemática de desenvolvimento e da subordinação e repressão cultural. O meu envolvimento com o Movimento Pugwash permitiu perceber indivíduos, comunidades e, mesmo, nações, com um comportamento reprovável, embora tendo atingido um bom nível de conhecimento, com alto grau de escolaridade. O que pode levar indivíduos, comunidades, nações, a um comportamento perverso, mesquinho, inconseqüente? Esse tipo de questionamento me levou a um exame das teorias mais aceitas do conhecimento. Percebi que a fragmentação, presente nas teorias mais aceitas, não permite perceber a complexidade das relações entre conhecimento e comportamento. Comecei então a abordar, de forma integrada, a geração, a organização e a difusão do conhecimento. Assim nasceu meu interesse pela transdisciplinaridade. Dois eventos foram de fundamental importância em 1986. A realização do Simpósio sobre "Ciência e as Fronteiras do Conhecimento", organizado pela UNESCO, em Veneza, e que deu origem à Declaração de Veneza, e o Congresso Internacional de Sociólogos, na Índia, onde falei sobre epistemologias alternativas. Nesse congresso, o fato de a delegação brasileira ser pequena, permitiu sairmos juntos em visita a sítios importantes e a compras em Nova Delhi. Foram interessantes e agradáveis as conversas com Fernando Henrique Cardoso e Paulo Renato de Souza, que faziam parte da pequena delegação brasileira. O outro evento, a reunião de Veneza, foi decisivo para o desenvolvimento de um nova visão sobre conhecimento, ancorada nos conceitos de transculturalidade e transdisciplinaridade. A partir desses conceitos foi possível reorganizar tudo o que eu havia pensado, nos vários contextos em que atuei, sempre com uma inclinação interdisciplinarmente. O foco, o grande objetivo, do conhecimento, só pode ser entender o homem como um ser vivo procurando satisfazer os pulsões de sobrevivência e de transcendência. Matéria e mente não podem ser examinadas isoladamente. As dimensões cósmica, planetária, social e individual do homem não podem ser entendidas separadamente. O conhecimento só pode ser abordado numa visão holística, transcultural e transdisciplinar. O objetivo maior de uma civilização planetária, com dignidade para todos os povos e culturas, só pode ser atingido pela PAZ. Obviamente, essas idéias penetraram meu discurso e minha prática como educador matemático. Ser Presidente do CIAEM abria possibilidades de difundir essas idéias, propondo novas direções para a Educação Matemática. Ter sido um dos signatários da Declaração de Veneza abriu novas possibilidades de atuação no meio universitário brasileiro. Em março de 1987 realizou-se o 1º Congresso Holístico Internacional em Brasília, e aí foi criada a Universidade Holística de Brasília/UNIPAZ, um importante passo no caminho que vai sendo traçado para um novo modelo universitário. No próprio ano de 1987 realizou-se em Santo Domingo, na República Dominicana, a 7ª Conferência Interamericana de Educação Matemática. Foi uma reunião muito interessante, na qual agucei meu interesse pela Informática Educativa. Eu já estava ativo na IFIP/International Federation for Information Processing, sendo membro do seu WG 3.1, Informática e Tecnologias da Comunicação na Educação Secundária, e havia participado da importante reunião de Varna, Bulgária, sobre Informática na Educação, em 1977. Mas foi a partir da 7ª CIAEM que passei a incorporar a Informática, sobretudo Inteligência Artificial, nas minhas reflexões mais amplas sobre conhecimento e comportamento. Na conferência foi eleito o novo Presidente da CIAEM, o Professor Eduardo Luna, da Universidad Católica Madre y Maestra, da República Dominicana. Desde então, embora sem a responsabilidade de organizar e executar atividades do CIAEM, tenho continuado ativo na Educação Matemática. Nestes últimos 15 anos, enveredei por novas direções na busca de explicações sobre a realidade, sem abandonar as várias áreas de atuação que desenvolvi no curso da minha carreira. Mas o presente relato abrange apenas os anos em que estive diretamente envolvido com o CIAEM, e termina com a transmissão da presidência do Comitê Interamericano de Educação Matemática para Eduardo Luna. |
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